Fui convidada para uma festa de final de ano com o tema “o avesso do avesso”. No grupo da festa choveram dúvidas e sugestões sobre looks e afins. O que é o avesso do avesso? Seria a tentativa de compreender o que há por trás daquilo que já estava por trás? Ou é um mergulho duplo de escavação na alma, em que o que se encontra não é resposta, mas desdobramento, uma brecha em que a superfície cede e dá lugar ao que pulsa sob a pele?
Para compor o meu look, fui buscar ajuda da arte. Não dos universitários, desta vez, mas dos professores. Pesquisei um pouco sobre músicas, dramaturgia, literatura e psicanálise para encontrar uma linha subterrânea que atravessa todas elas: o impulso de revelar o oculto sem a pretensão de esgotá-lo.
Muitas referências, neste mundo de informações acessíveis, complicam mais que ajudam quem escreve. Se, no final, a escrita não ficar clara para o leitor, escrevi uma crônica umbilical adornada de piercings. Aliás, já tive piercing no umbigo. Que fase. Alerto aos leitores adolescentes, espero que eles estejam por aqui, que o furinho do piercing nunca fecha. Não significa que isso seja má notícia.
Voltando às refs, como publicitários e arquitetos gostam de falar. Fui de Caetano Veloso ao dramaturgo italiano Luigi Pirandello, porque ambos falam de percepção das ilusões e de como a identidade humana é fluida e fragmentada e não um bloco cheio de certezas e rótulos. Aí talvez esteja a origem da luta insana pelos códigos externos que possam nos traduzir rapidamente e nos retirar da angústia inconveniente de não saber quem somos.
“Vender um sonho feliz de cidade” pode ser também vender um sonho de felicidade, a ficção que, pelo amor ao mercado, esconde que “cada um de nós é um, nenhum e cem mil”, como no título da peça de Pirandello. A arte é um laboratório da alma, um espelho que nos devolve em fragmentos. O artista se despe, literalmente ou metaforicamente, para mostrar que o disfarce é também sua pele e é nesse instante que quem assiste a um filme, a uma peça, observa um quadro ou lê um livro reconhece o próprio abismo. Arte incomoda.
A escrita é um espelho líquido. O rosto que ela devolve nunca é o mesmo. Cada palavra é uma fresta por onde o inconsciente respira. Quem escreve sabe que o essencial é o que escapa, o que não cabe na frase, mas vibra nas entrelinhas. Aquela palavra perdida, apagada pela memória ou deletada, de alguma forma continua presente no texto. O avesso do avesso é o próprio inconsciente, o lugar onde o sujeito se perde para se encontrar. Isso quem diz é a psicanálise. Freud mostrou que o Eu não é senhor da própria casa. Lacan mostrou que o desejo é uma língua estrangeira dentro de nós. O sonho é o avesso da vigília, o sintoma é o avesso do discurso, o amor talvez seja o avesso de todos os avessos, aquele em que a verdade se disfarça de entrega. O amor vem em variadas embalagens, com laços estéticos e, com sorte, também éticos. Mas é um pacote complexo de reconhecer.
O avesso do avesso pode ser essa dobra inexplicável em que o erro vira metáfora, o medo se converte em matéria de criação e a dor, em linguagem. Viver talvez seja ter disposição e coragem para descascar-se até não haver mais direito nem avesso, apenas o reflexo da existência sob a luz da consciência.
Somos sempre muito secretos para nós mesmos. Somos muito mais o que não sabemos do que o que sabemos ser. Tudo o que silenciamos ao espelho e revelamos aos travesseiros. Escrevi isso no meu livro Cuide dos seus achados. Esqueça os seus perdidos. Não me lembro o que me inspirou, mas fico pensando se não é nesse território entre o espelho e o travesseiro que mora o avesso do avesso. Aquele ponto em que nos dobramos sobre nós e descobrimos que a alma tem costuras invisíveis. Muitas vezes, bem acabadas, outras, aos fiapos.