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Sextas Crônicas

O perdão é o colágeno da alma

Quando viramos um “pote até aqui de mágoa” sem perceber, vamos nos calcificando emocionalmente. Endurecemos. Perdoar restitui elasticidade à alma, permite que as emoções voltem a se movimentar sem nos quebrarmos com os atritos

Publicado em 27 de Junho de 2025 às 04:30

Públicado em 

27 jun 2025 às 04:30
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

O perdão está para a alma assim como o colágeno está para o corpo. Ambos são estruturantes. Agem na integridade, elasticidade e resistência do corpo e da alma. Ultimamente, tenho me preocupado mais com as rugas da minha alma do que com as da minha testa. Quero aproveitar essa megatendência de bem-estar para surfar melhor minhas ondas internas. Aprender a não me afogar em mim.
Nem preciso de previsão do tempo para saber que vem desafio grande por aí. Quando você resolve pacificar-se, a despeito das absurdas guerras no seu entorno, sabe que vai ralar o ego. Dói só de pensar.
Retirar das paredes da nossa subjetividade mágoas emolduradas, troféus de ofensas vividas e feridas alimentadas dói, porque, paradoxalmente, estamos muito identificados com nossas dores. Ao abrir mão de uma mágoa, convém saber quem seremos sem ela.
Quando viramos um “pote até aqui de mágoa” sem perceber, vamos nos calcificando emocionalmente. Endurecemos. Perdoar restitui elasticidade à alma, permite que as emoções voltem a se movimentar sem nos quebrarmos com os atritos. O perdão é uma substância sutil, lubrifica as relações. Ele não apaga o trauma, mas permite que a memória se dobre, que a lembrança se encaixe de forma mais tolerável no tecido emocional.
Há dores que ficam como articulações inflamadas, doem só de tocar no assunto. Há atos imperdoáveis. E isso diz muito sobre os nossos limites. Para eles, o autoperdão. Perdoar-se por não perdoar.
Viver é também administrar nossas feridas. Algumas cicatrizam melhor que outras. O ego se identifica tanto com o que sofreu, que teme perdoar como se isso fosse apagar sua história. Mas perdoar não é apagar, é reorganizar. É como quando o corpo forma novas fibras para dar sustentação onde antes só havia fissura.
Esta crônica começou no consultório de um dermatologista que fala muito sobre banco de colágeno. Falamos tanto de corpo, que saí da consulta refletindo sobre o cuidado com a minha alma. Bateu aquela vontade de fazer uma skincare na alma.
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O perdão em um abraço Crédito: Pixabay
Ser capaz de perdoar e de perdoar-se é aplicar sobre a alma ferida uma espécie de colágeno simbólico: uma elasticidade que nos permite continuar sendo, mesmo sem ser ideal.
O perdão devolve maciez à convivência, plasticidade às emoções, e uma resistência silenciosa que impede que tudo se rompa com o primeiro atrito. Ele é o que faz com que a alma não se despedace ao menor movimento brusco da vida. E a vida é assim, brusca e bem-intencionada. Perdoável, portanto.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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