Fico um pouco melancólica quando penso que existe gente que não acredita nos mistérios do universo. Dá uma certa pena. Quanto mais cética a pessoa, mais dó eu sinto dela. Sei que ela está perdendo algo grandioso. A fé não somente remove montanhas, mas também movimenta os nossos mares. Nossos fluidos agitam-se e serenam diante do mistério e do assombro. A vida pede uma reverência ao invisível, ao incognoscível, essa palavra tão Saramago que soa como um portal fechado com uma chave que talvez more em nós.
Deve ser ruim não saber-se partícipe de algo maravilhoso e surpreendente. Corro para que essa displicência nunca (mais ) me alcance. Sim, porque nem sempre fui atenta a isso. Estar pronta para integrar milagres exige um tempo de caminhada pela vida. Servir ao universo diverte, instiga. É uma honra.
O mundo é mesmo muito mais do que aquilo que se pode provar. E, francamente, que graça teria viver se tudo fosse comprovável? Se não existissem os calafrios sem causa, os encontros que mudam rotas, os pressentimentos que avisam antes que o chão se rompa?
A realidade nua é, por vezes, áspera demais. É da natureza de quem escreve vestir a vida com o véu da palavra. E, sim, palavras têm poder. São capazes de mudar realidades. Mas, claro, só para quem confia nessa estranheza que é ser tradutor das línguas que o universo fala.
Há quem viva apenas com os pés no chão das palavras duras. Conheço pessoas tão bem organizadas, tão racionais, que parecem ter feito um pacto com a secura. Não duvidam de nada, porque já decidiram que não há nada além. Isso me espanta, no mal sentido da palavra, é claro.
Quando a vida dá uma desafinada, é bom ter um repertório amplo de palavras macias para resgatar o bom tom. Ampliar sua playlist predileta é fundamental para atravessar momentos barulhentos.
Milagres acontecem na palavra boa que chega. Ouvir essa palavra certa dá uma sensação de estar no lugar, na hora, e com a pessoa exata, mas estar com o espírito presente para ouvi-la e traduzi-la para alguém é algo que faz você se sentir um estagiário de Deus.
Vou dedicar essa crônica a uma querida nova amiga que me inspirou a falar as palavras certas na hora em que ela mais precisava.
Ah, Universo, pode me usar porque é disso que eu gosto.