Gargalhei ao telefone com minha mãe. Foram segundos de felicidade intensa. Desde os 16 anos, quando vim fazer faculdade em outro estado, eu ligo para ela praticamente todos os dias. Vou visitá-la menos do que gostaria, mas falamos muito. Nem sempre tenho paciência para longas conversas. Na verdade, quase nunca. As chamadas são curtas. Muitas vezes falas burocráticas sobre remédios, alimentação, sono e outros itens de rotina. Ouço suas bençãos e aviso: “Agora vou desligar, mãe”. Foi mais ou menos assim nos últimos anos. Até que há poucos dias, eu redescobri o prazer de falar com ela. Um prosa que ilumina meus dias.
Na pandemia, minha mãe sofreu um acidente, quebrou o quadril e foi de cadeira de rodas ao sepultamento do meu pai. O mundo dela sempre girou em torno dele. Meu avô materno foi contra o casamento, mas aos 19 anos ela bancou a decisão. Ficou sem herança e festa , mas escolheu o homem que seria pai dos seus filhos e com quem construiria uma vida. Fez possível um amor impossível. Porque assim são todos os amores. Os impossíveis podemos chamar apenas de dores. E isso precisa ser dito, sem medo de ser feliz.
Sim, cá estou eu novamente falando de amor. Insistentemente, proseando sobre o amor. Esse senhor que há mais de dois mil anos repete roupagens do mesmo padrão.
As brincadeiras com minha mãe ao telefone me trouxeram de volta o amor-humor. Ela está com a cabeça ótima depois de um período muito nebuloso com outras quedas e problemas graves de memória e cognição que, assim como vieram, foram embora. Abrindo mais o meu coração através da escuta, percebi que o meu humor é que não estava comunicando o meu amor.
Reza de mãe é forte. Todos os dias ela me fala: “Deus é bom. Deus é amor”. Hoje, eu acrescento, Deus é humor. É a leveza do riso e da alegria, mas se quiser chamar de amor também pode. Não teorizo para ela, apenas dou espaço para suas histórias e suas piadas que – misteriosamente - “me curam de uma loucura qualquer”.
Oferecer amor da forma que o outro consegue receber é o tipo de conexão mais elevada que existe. A pista de que você está sendo amado é sentir-se curado de alguma forma. E a de que você está amando é sentir-se capaz de curar de alguma forma. Amar jamais adoece. O amor nos melhora, sofistica nossas relações com todos os seres.
Exigir sacrifícios e dores é uma prática de desamor que encarcera almas e corpos. Amar não tem prova. Amar é recreio da alma. Não é sem razão que usamos a expressão “vamos brincar” em substituição a “vamos fazer amor”. Não se preocupe, esta é uma crônica familiar.
A palavra brincar tem origem latina. Vem de vinculum, que significa laço, algema (ops..), que, por sua vez, vem do verbo vicire, que é prender, encantar. Todos os caminhos lúdicos levam ao amor.
No contexto do Budismo, amar é estar presente e isso não é sobre presença física. Minha mãe está certa, como, aliás, estão todas as mães. “Deus é amor” é o mantra mais poderoso que existe.