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Sextas Crônicas

A epidemia de espetáculos banais durante conversas ao celular

Cafés, restaurantes, feiras, aeroportos, salas de espera estão entulhados de gente que não sabe esperar meia hora para fazer uma chamada telefônica privada. De repente, assim do nada, somos incluídos em conversas pessoais em intermináveis trocas de áudio

Publicado em 20 de Setembro de 2024 às 02:00

Públicado em 

20 set 2024 às 02:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Silêncio, por favor. Pensei em falar. A moça sentada ao meu lado no café não era uma pessoa antipática, até respondeu com um aceno de cabeça ao meu boa tarde quando chegou. Gosto de cumprimentar as pessoas. Mesmo as desconhecidas.
A moça parecia simpática. Seria. Se não estivesse armada de um celular e ausência de noção. Sentou-se a um metro de mim, sacou o telefone, acionou o viva-voz e roubou meu sossego.
Em menos de meia hora, me obrigou a ouvir sua conversa com a cunhada, com direito a trejeitos, caras e bocas. Agia como se estivesse em um palco. Engatou uma segunda chamada, desta vez para o porteiro do prédio, Seu Romildo, coitado, passou aperto para comprovar que a encomenda dela não estava na portaria. Pacientemente, leu o destinatário de caixa por caixa, nome por nome, porque ela tinha cer-te-za, que a entrega já havia sido feita. E ele, que talvez nem compre on-line, ouviu poucas e boas sobre sites que atrasam, direito do consumidor e todas as providências que ela tomaria se o pacote não chegasse amanhã-pela-manhã.
Certamente, Seu Romildo nada tem a ver com a ansiedade que envolve entregas expressas, prazeres momentâneos e como isso rege o mercado do tempo. Pelo seu tom de voz ao telefone, imaginei que ele ficaria sem um ‘boa noite’ quando a moça chegasse em casa. Pensei em porteiros e entregadores. Pensei em Djavan e “não ter e ter que ter para dar”.
Na terceira troca de áudios, quase perdi a paciência, foi quando quis pedir silêncio. Recém-saída de uma sessão de psicanálise, estava com o cérebro feito um formigueiro. Queria mergulhar nos meus porquês. Qual enigma me sustenta? Que porquê me falta e por quê? Por que precisa ser fogo contra fogo, se a fumaça mata todo mundo? Tentei, mas não consegui engatar nas minhas reflexões.
Gostasse ou não, ouvia menos meus pensamentos e mais sobre os detalhes do vestido que a moça comprou para o casamento da Má com o Fê. Na ligação, ela detalhou para a Rê tudo, ali, assim, na minha frente – e de outros, porque o café estava lotado. Sei que o vestido tem que ser usado com um body cor-da-pele, porque ele é transparente. Sei também que ela vai fazer uma maquiagem “de bonita” e deixar bastante pele à mostra, porque ela fez bronzeamento artificial. E, principalmente, sei que o Bê estará na festa. Sei os porquês dela.
O que não sei é de onde saem cada vez mais pessoas querendo tornar públicos os seus assuntos privados? Não foi há tanto tempo assim que colocávamos a mão em concha sobre o celular para responder uma chamada urgente em local público.
Jovem usando celular: hábito pode causar lesão conhecida como síndrome do pescoço de texto ou pescoço tecnológico
Jovem usando celular Crédito: Unsplash
Cafés, restaurantes, feiras, aeroportos, salas de espera estão entulhados de gente que não sabe esperar meia hora para fazer uma chamada telefônica privada. De repente, assim do nada, somos incluídos em conversas pessoais em intermináveis trocas de áudio sem nenhuma autorização.
Estava pulando de julgamento em julgamento, quando me dei conta de que fui facilmente afastada dos meus porquês, tão difíceis de atingir, e fiquei entretida por um espetáculo banal. O que nos fisga naquilo que nos anestesia?
Não sei, como diria Ariano Suassuna: só sei que é assim.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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