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Crônica

Laços enfeitam o tecido da vida

Cortar um laço de sangue é a opção extrema de quem está mergulhado em feridas grandes demais para suportar permanecer, ou está cheio de si

Publicado em 25 de Agosto de 2023 às 00:10

Públicado em 

25 ago 2023 às 00:10
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Cortar um laço pode ser um ritual de nascimento, de inauguração, ou de morte simbólica. Aquele que não constrói laços ata nós, os incômodos a serem desfeitos. Tudo que permanece na delicadeza é laço.
A tesoura do cordão umbilical nada sabe da invisibilidade daquela que corta, aos poucos, com fio cego, ou abruptamente, como uma navalha afiada, os laços de sangue. O nascimento não prevê a morte.
Porta-retratos vazios e fotos deletadas são cortes profundos expostos para deleite de haters e curiosos sensíveis ou insensíveis. Todos querem ver o sangue que escorre do coração exposto da filha órfã de pais vivos. A espetacularização da dor serve à mídia, que gera mais dor, que gera mais mídia.
No desfile público da dor dos outros cabem todas as nossas fantasias. Também cabem, nesta avenida das dores, as fagulhas de possibilidades, as pontas de agulha para fazer suturas naquilo que sangrou. Podemos bordar sobre a dor, criar novos pontos de apoio. Inventar o amor.
Laços rompidos sujam salas e quartos, enchem banheiras e piscinas de sangue. Seria esse o prejuízo final? Desamar até não restar nenhuma gota de amor, só manchas. Conviver com nódoas de sangue onde antes era entrelaço. Desver semelhanças físicas, descurtir, deletar, bloquear.
O desamor de sangue é um descabimento de dor, transborda em um jorro vazio de vida. Veias ressequidas desertificam nosso coração. Sentimentos rompidos são pedaços de nós exilados de nós, como diz Chico Buarque. Laços de sangue despedaçados trazem a saudade como castigo, para todos os membros que um dia estiveram envoltos na membrana da palavra família.
Larissa, Silvana e Gilberto trouxeram a dor das rupturas dos laços de sangue para as rodas de conversa em família. Assim é a vida, surpreendente ao ponto de uma ruptura familiar mover outras famílias para o encontro. Nunca se sabe, de antemão, para onde o que nos afeta nos desloca.
Larissa Manoela ao lado dos pais, Gilberto e Silvana
Larissa Manoela ao lado dos pais, Gilberto e Silvana Crédito: Reprodução/Instagram/@larissamanoela
Corações que se deixam atingir pelas dores dos outros, de alguma forma, têm uma fresta para entrar algo que talvez seja o amor. Nem só para o desalento caminha a humanidade. Do espetáculo também se extrai substância para uma melhor construção da vida real.
Cortar um laço de sangue é a opção extrema de quem está mergulhado em feridas grandes demais para suportar permanecer, ou está cheio de si. Não há laço possível sem o desejo de unir-se ao outro. Laços são caminhos de encontro opcionais. Existem somente para aqueles que diante do outro desejam construir em conjunto algo que pode ser infinito.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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