Nem todo mundo gosta de vinho rosé, nem do perfume de rosas. Mas amores e sabores convêm provar antes de rejeitar. Quando eu soube, faltando apenas dez dias para o lançamento do meu primeiro livro, que a cor da capa havia mudado para rosa, eu tive um pequeno surto.
Estava dobrando a esquina da minha casa quando atendi a uma chamada do diretor da editora informando que eles teriam que mudar a cor da capa do livro. Lembro de parar no meio da calçada com um “como assim?” gritando dentro de mim.
Conto em uma única mão as pessoas que sabem a cor da capa anteriormente aprovada. Isso ficará entre nós.
Queria não saber que a editora tinha razão. Lançar uma edição robusta, de quatro mil livros, com paleta igual a outros dois lançamentos em plena bienal, não fazia sentido. Foi uma das poucas vezes em que desejei ignorância. Não queria entender de marketing, de gôndola, de processo gráfico e afins. Como seria bom fazer apenas a indignada ignorante e produzir um reclamar sem fim. Mas isso seria retroceder no processo de conjugar rugas com sabedoria, que tem me seduzido cada vez mais.
Confesso que julgo os reclamadores umbilicais, sempre a levar pedacinhos de torta de jiló para os outros, dividindo maledicências, rancores e um saco de problemas miúdos. Sempre alheios aos interesses dos interlocutores. Não lhes interessa solução dos problemas, apenas gozar na queixa recorrente. Êta vida cinza dessa gente.
Sei pouco sobre vinhos rosés, e por não conhecê-los, já os rejeitei muito. Também demorei para me apaixonar pela capa cor de rosa do meu livro. Foi muito intencional transformar uma marmelada em goiabada, que, afinal, eu sempre amei. Gostar do possível é algo que promove uma vida mais leve.
Meu livro de capa rosa me fez ainda mais atuante em causas importantes para as mulheres, porque a cultura de “meninas vestem rosa” precisa muito de mulheres com voz firme e flores na mão. Descobri que rosa é uma cor que combina com o meu tom de pele. E agora ando caída de amores por vinhos rosés, que, até então, eu detestava.
Pintou uma fase rosa, cheia de desejo de flores, cores e amores, como na música eternizada por Édith Piaf, “La vie en Rose”. Bateu em mim um desejo de harmonizar, de olhar para os matizes, de aprender com a natureza, sábia, que produziu uvas vermelhas e verdes, e o homem para misturá-las de diversas formas e sentir-se o criador da mediação. É só uma nova forma de olhar, mas mudou paradigmas muito arraigados em mim. Nunca é tarde para rever nosso jeito de ser.
Pensei aqui no poema “Relógio”, de Ana Martins Marques, que usa ações para medir o tempo.
(...) se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com uma faca uma laranja em duas:
dia
se abre com os dedos um fico maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
(...)
Me arrisco a servir entre a água e o vinho uma tarde regada a rosés e palavras de amor.