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Sextas Crônicas

A palavra dita é uma flecha lançada

Estamos nos acostumando muito facilmente à banalização das palavras dentro do composto da linguagem, mas elas têm poder, inclusive de colocar tudo a perder. Respeitá-las simplifica as questões

Publicado em 23 de Fevereiro de 2024 às 02:00

Públicado em 

23 fev 2024 às 02:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Cortar palavras dói. Editar o texto, refrear a língua, deletar o escrito ou suprimir uma fala desejosa de ser dita é arrancar sílabas da carne, que é verbo.
Para polir a fala, há que desembrutecer a palavra, é necessário faxinar o céu da boca. Retirar teias de aranha que nos enredam em tramas desnecessárias e antigas. Desapegar do nosso dizer para nos unirmos ao ouvir do outro requer arriscar a pele. A linguagem é o chicote da diplomacia. Bate.
Falar o que se pensa nem sempre toma a forma do que realmente se pensa. Existimos muito mais onde não pensamos. Palavras são escorregadias e agudas, perfuram a consciência. É preciso arredondá-las, senti-las, dar a elas tempo para espraiarem-se na saliva e deixarem que decidam se escorregarão para fora ou para dentro da boca.
Palavras pesadas escapam de bocas cheias de si, ou vazias do mesmo elemento. Significam demais ou são por demais insignificantes. Convém mantê-las na boca, se possível, encarcerá-las nos porões dos mal-ditos, embora saibamos que a segurança máxima fenece aos cochilos da consciência.
Há alguns anos, durante a pandemia para ser mais exata, assisti a "Minimalismo: um documentário sobre as coisas que importam". Éramos seis pessoas em casa e toda a nova parafernália que incluía máscaras, álcool gel, ring-lights – essas coisas que uma vez abertas, jamais voltam a ser guardadas, além de laptops, pantufas e conjuntos de moletom, os reis na nova hierarquia de closets e armários.
Palavras
Palavras Crédito: azerbaijan_stockers/Freepik
O documentário, que eu revi esta semana, narra a trajetória de dois amigos que encontraram mais alegria ao desapegarem-se de coisas que roubavam espaço, físico e metafórico, das suas vidas. Joshua e Ryan tinham uma boa história para contar e uma intenção clara: disseminar a prática da simplificação como exercício de alegria.
O poder de síntese do minimalismo, visto como filosofia de vida, que abarca da ética à estética, passa também pela escolha das palavras. Estamos nos acostumando muito facilmente à banalização delas dentro do composto da linguagem, mas palavras têm poder, inclusive de colocar tudo a perder. Respeitá-las simplifica as questões.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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