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Sextas Crônicas

Sobre "Saltburn": consciência é o novo luxo

A vida é mesmo uma espécie de jogo de luz e sombras, como a fotografia de um filme. Uma luz boa muda tudo. Fora e dentro de nós

Publicado em 12 de Janeiro de 2024 às 01:45

Públicado em 

12 jan 2024 às 01:45
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar Aurê Aguiar
Saber de si é uma batalha que nem sempre se está disposto a travar. O caminho para dentro não é fácil. Algumas recusas são dolorosas. Pertencer-se antes de pertencer ao que quer que seja, um grupo, uma família, uma comunidade, é uma escolha exigente.
Assisti ao filme "Saltburn" esta semana. Dirigido pela inglesa Emerald Fenneli, o thriller, com pitadas de humor ácido, é o campeão de resenhas deste início de ano.
Muito já foi dito sobre a trama que envolve dois estudantes da Universidade de Oxford, um bolsista e o outro ultrarrico. Saltburn é o nome do castelo onde o segundo chamou o primeiro para morar com a irmã, os pais e alguns agregados descartáveis, pessoas transformadas em objetos de entretenimento.
O filme é uma grande colagem de referências, esbarra em outros thrillers, passa por elfos shakespearianos e personagens mitológicos.
Nem vou falar das muitas questões polêmicas do longa, também não darei spoiler. Lamento, porque eu adoraria descrever, com detalhes, sua cena final. Mas meu ponto aqui é a conversa entre a irmã do bilionário e o ex-bolsista, definido por ela como uma mariposa que, ao ser atraída pela luz — real ou imaginária do outro —, debate-se contra vidraças para estar mais perto e, não raras as vezes, perde a noção de si e morre queimada.
Perder-se para pertencer, quem nunca? Arrancar pedaços de si para caber em espaços e encolher até desaparecer. Ou, por outro lado, inchar para ocupar espaços vazios até adoecer, porque é isso que o inchaço sinaliza: doença.
Egos inflados atraem mariposas? Relações interdependentes são uma mistura de amor e ódio, fusão e aversão.
Cena de 'Saltburn'
Cena de 'Saltburn' Crédito: Divulgação
A vida é mesmo uma espécie de jogo de luz e sombras, como a fotografia de um filme. Uma luz boa muda tudo. Fora e dentro de nós.
Este ano, eu afirmei que não teria uma palavra-guia como fiz nos últimos cinco anos. As sombras da palavra espiritualidade — minha escolhida em 2023 — foram muito assustadoras.
Afirmei, mas não confirmei. Minha palavra do ano cresceu e quando eu vi, escapou da minha boca. "Saltburn" me ajudou a defini-la. Tê-la presente no meu ano me fará mais atenta à sua ausência.
Autoamor é uma via de acesso ao pertencimento de si, um cuidado essencial. É o primeiro passo para ser sujeito e não apenas objeto do amor.

Aurê Aguiar

Aurê Aguiar Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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