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Sextas Crônicas

A dona das próprias pernas

Madonna é toda intencional, tem muita consciência de que estamos atravessando uma espécie de abdução pela mente. E, o que é pior, de uma mente que nem é humana

Publicado em 24 de Julho de 2026 às 04:00

Públicado em 

24 jul 2026 às 04:00
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar Aurê Aguiar

Madonna está de volta. Desencaretando o mundo, como sempre, e arrancando a hipocrisia do armário.  Chegou com tudo: corset, véu, saia curta e coreografias ousadas. Os vinte anos de diferença entre "Confessions II " e "Confessions on a Dance Floor" soam como mais uma provocação da rainha do pop. Outra vez ela vem alertar que o corpo em movimento é uma forma de oração que dispensa intermediários e não tem prazo de validade.

 

Para um mundo cada vez mais chato, que ama catalogar mulheres por idade, por estética, por grau de domesticação, temos Madonna: a mulher que criou uma categoria própria. É a rainha da disrupção há mais de quarenta anos. Incomodou e incomodará sempre. Essa é a sua prova de vida.

 

O álbum “Confessions II” nasceu depois de uma travessia pessoal e física de Madonna. Ela quase morreu de uma infecção bacteriana grave, perdeu o irmão, ficou sete anos sem lançar nenhum disco, mas novamente nos convida a dançar, celebrar, rezar com o corpo. Madonna é toda intencional, tem muita consciência de que estamos atravessando uma espécie de abdução pela mente. E, o que é pior, de uma mente que nem é humana.

Madonna em foto de divulgação do disco 'Confessions II' Rafael Pavarotti/Divulgação

A capa do novo disco já tem um elemento viral. Fotografada pelo brasileiro Rafael Pavarotti sobre uma pilha de caixas de som, envolta num tecido transparente em lilás e rosa-choque, Madonna cobre o corpo sem escondê-lo. O véu é um elemento constante na sua história. Véu do ritual religioso, que separa o profano do sagrado. O mesmo véu que agora está sendo exaustivamente compartilhado em montagens de IA.

 

O corset é outro elemento que Madonna capturou para si. Ele sempre foi símbolo de armadura e erotismo nos seus clipes. Remete aos arquétipos de guerreira e amante, sem abrir mão dessa contradição, porque para ela essas duas coisas nunca foram contraditórias.

 

O incômodo é o ponto. Madonna perturba com a voz, com o figurino e com o corpo, porque revoga, de uma vez, dois contratos que se esperava que ela assinasse: o do recato compulsório da idade e o da separação entre sexualidade e transcendência. Ela nunca assinou nenhum dos dois. Os incomodados que dobrem as sessões de terapia.


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Mas eu não vou escrever sobre Madonna sem citar esse deboche que foi vê-la na final da Copa da Fifa, em solo americano. A provocação começou no carro escolhido para a performance. Um manifesto sobre rodas, meio Mad Max, pós-apocalíptico, meio buggy das dunas nordestinas. Era uma máquina de improviso, construída para atravessar um terreno hostil.

 

A mesma comunidade que ela sempre protegeu estava como tripulação nessa travessia da desertificação da humanidade feita pela carro-aranha. Se era futebol-arte o que faltava, que sejam convocados os Ronaldos. Madonna mostrou que há luz no fim do túnel. Inclusive, para o insosso futebol brasileiro atual.

Madonna entre os Ronaldos

Levou Ronaldinho Gaúcho, o gênio que jogava como se a bola fosse extensão do próprio corpo, e Ronaldo Fenômeno, outro jogador que escapa à explicação convencional. Duas feras do futebol-arte brasileiro. Madonna e os nossos Ronaldos: três corpos geniais que vão muito além da estética e honram a ética de estar encarnado. Esse é um bom jeito de rezar.

 

Aurê Aguiar

Aurê Aguiar Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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