Copiado de personagem de Itamar Vieira Jr. em ‘Torto Arado’, o nome Belonisia é utilizado para manter o anonimato da pessoa que inspira este artigo. Mulher que nasceu, cresceu e mora em bairro pobre da Grande Vitória, Belonisia se considera uma vencedora e relata sua felicidade por ter comprado o que faltava para terminar a casa que ela e o marido estão construindo há mais de três anos na laje da propriedade dos pais dela.
Nos termos adotados pelos marqueteiros e coachs que prometem sucesso nos tempos atuais, Belonísia é uma empreendedora que sabe diversificar suas fontes de renda. Faz faxina, bolo para fora, é manicure, pedicure, cabeleireira e está sempre se atualizando pela internet sobre tudo o que faz para fazer cada vez melhor.
É casada com um operador de empilhadeira que trabalha em uma empresa de logística da cidade e que deseja tirar carteira de motorista profissional para melhorar seus ganhos financeiros. A carteira profissional fica para depois que as despesas com a construção da casa terminarem.
Despesas que são sempre parceladas via crédito das lojas de material de construção ou através do cartão de crédito que o padrasto empresta. Quanto à taxa de juros que são cobradas, pouco importa. O que é levado em consideração é se as parcelas podem ser cobertas com a soma do salário do marido e de tudo que Belonisia tem como certo de receitas de suas múltiplas iniciativas.
Pagar as parcelas rigorosamente em dia é questão de honra e viabilidade financeira. Em hipótese alguma podem perder o crédito, “... a única coisa que permite a gente fazer alguma coisa para o futuro”. No momento, a prioridade é para deixar a casa em construção arrumadinha e poder morar em algo próprio. Sonho que está se realizando porque moram desde que casaram na casa da mãe e do padrasto que agora cederam a laje para a construção do cafofo próprio.
Nada que Belonisia e o marido compram deixará de ser comprado por conta da taxa Selic ou pelos spreads cobrados pelos bancos. Termos que ela entende pouco conceitualmente mas que sente diretamente nas contas a pagar e na hora se calcular o quanto cabe a mais de prestação no orçamento familiar. Orçamento administrado com rigor, sem essa de sair para comer/beber fora. As comemorações e saídas para o lazer são acompanhadas por comidas e bebidas levadas de casa pois na rua “...os preços são um absurdo”.
O que fica claro é que para Belonisia, seu marido e a maioria das pessoas em situação semelhante a deles (mais da metade da população brasileira), os juros absurdos que pagam para adquirir qualquer bem em nada os impede de comprar o que desejam, desde que as parcelas caibam no orçamento. Altas ou manutenção de juros elevados só servem para adiar sonhos, vontades e condições para melhor os rendimentos, como é o caso da carteira de motorista profissional para o marido.
Conversando com ela fica também claro que grande parte do que consomem famílias com renda mensal de até cinco mil reais é produzido por empresas que podem ter sua capacidade ampliada facilmente se tiverem acesso a crédito a juros compatíveis com o retorno financeiro esperado. Ou seja, podem gerar mais empregos e mais renda sem causar inflação.
Inflação preocupação obsessiva do sr. Roberto Campos Neto e quem ele representa na presidência do Banco Central cujas causas estão muito longe do consumo de Belonisia e da maioria da população brasileira. Central na inflação mundial é a formação de estoques especulativos por parte do capital improdutivo cujos ganhos compensam o pagamento de juros mais altos.
Nem tão altos quanto os pagos pela maioria dos consumidores e micro, pequenas e médias empresas. Para o capital improdutivo tem sempre subsídios cruzados.
Os financistas encastelados no Banco Central sabem disso, mas continuam operando como se os critérios ‘técnicos’ que utilizam fossem verdades absolutas e superiores ao bom senso de Belonisia e do quanto ela representa a essência do povo brasileiro: resiliência, dedicação ao trabalho, e sonho sempre presente por dias melhores.