Espaços formados durante o período colonial por escravizados e/ou seus descendentes foragidos, os quilombos são uma demonstração da resistência e da resiliência do povo brasileiro. Resistência e resiliência que se faz presente desde a invasão de europeus ao território brasileiro, primeiro pelos povos que aqui habitavam; depois pelos africanos que para cá foram trazidos como mão de obra escravizada para os ciclos do açúcar, do ouro e do café.
Resistência e resiliência que se fazem presentes nos mais diversos territórios rurais e urbanos onde mulheres e homens buscam espaços onde possam exercer sua cidadania plena. Plenitude que vai além do direito de votar e de se fazer representar em instâncias políticas quando têm oportunidade para tal. Cidadania plena que exige o direito à terra para trabalhar no campo e para habitar nas cidades e vilas.
Cidadania que para ser plena precisa de poder público que assegure a prestação de serviços de educação, saúde, habitação, transporte, cultura, segurança, dentre outras, a todos, conforme estabelece a Constituição de 1988. Apesar dos avanços dessa Carta Cidadã a prática das políticas governamentais em todos os níveis ainda está longe de assegurar a todos o brasileiros esses direitos fundamentais.
Daí o Brasil poder ser visto como um grande quilombo no sentido de espaços espalhados por todo o território nacional onde no dia a dia mulheres e homens resistem e são resilientes a todo tipo de opressão. Opressão direta por um sistema econômico excludente e indireta por omissão de autoridades constituídas que fazem vistas grossas ao continuado esgarçamento do tecido social brasileiro.
Resistência e resiliência de ‘escravizados’ dos dias atuais que lutam por seus direitos e que aos poucos vão conquistando espaços de destaque na institucionalidade brasileira. Seja através das diversas dimensões das artes, seja através da ocupação de posições de destaque no cenário político.
Emblemáticos são os casos dos sambas-enredo da Portela, no Rio, e da Piedade, em Vitória, no carnaval de 2024. Emblemáticos são Gilberto Gil e Ailton Krenak ocupando cadeiras na Academia Brasileira de Letras.
Outros estão por aí, rejeitados e protestados por aqueles que continuam aceitando como norma e se beneficiam do processo de exclusão social. É hora de entenderem que um novo Brasil emerge dos quilombos de excluídos que resistem em todos o território nacional.
Resiliência e resistência que se fortalece com programas de inclusão social abrangentes como o Bolsa Família e o de cotas em universidades e institutos federais. Resistência ampliada pela ocupação no campo e na cidade de terras e construções ociosas e improdutivas que descumprem o papel social a elas destinado pela Constituição.
Resiliência e resistência que empodera jovens, mulheres, LGBTQI+, povos originários e negros, dentre outros, em territórios rurais e urbanos que vão sendo transformados em espaços melhores, mais produtivos e criativos. Tudo consequência da emergência de um novo espírito libertário do povo brasileiro.
Espírito libertário pouco percebido por muitos em instâncias políticas e econômicas para quem a maioria das pessoas só existe enquanto eleitores, mão-de-obra ou consumidores. Mais do que um problema, o espírito libertário que resiste nos quilombos de territórios brasileiros precisa ser visto como parte da solução para um Brasil que se deseja atuante na construção de um outro mundo possível.