A Inglaterra é o berço do dogma segunda o qual inexiste sociedade, o que vale são pessoas e famílias. Pessoas e famílias cujos interesses intermediados por forças do mercado resultam em uma convivência melhor para todos. Assim posto pela principal liderança do Partido Conservador, Margareth Tatcher, o ideário neoliberal dominou boa parte da política inglesa nos últimos 40 anos mesmo quando assumiram o governo os trabalhistas.
Para além do enfraquecimento dos movimentos sociais, inclusive o sindicalismo, o neoliberalismo na Inglaterra resultou na continuada perda de direitos sociais consagrados ao longo de mais de cem anos de construção de um estado de bem-estar. Perdas que começaram por negar direitos universais e torná-los cada vez mais restritos a quem no país nascesse.
Perdas que se ampliaram quando da privatização de propriedades estatais voltadas para a prestação de serviços habitacionais, seguidas daquelas ligadas ao transporte público de passageiros, aos saneamento básico, entre outros. Daí a colocar o serviço nacional de saúde, o sistema de ensino superior e a prestação de serviços culturais para funcionarem segundo a lógica de mercado foi um pulo.
Isso junto a um fiscalismo que reduziu substancialmente a disponibilidade de recursos públicos para qualquer atividade voltada para um mínimo de coesão social no país. Os resultados estão aí: a precariedade do atendimento médico-hospitalar; da oferta de habitação a custos compatíveis com os ganhos da maioria das pessoas, principalmente dos mais jovens; dos serviços de transportes públicos, de saneamento básico, dentre outros.
Isso combinado com a bem orquestrada campanha contra imigrantes resultou em uma sociedade que cada vez mais se esgarça. Esgarçamento que acentuou-se durante a pandemia da Covid e que continuou depois que ela amenizou. Esgarçamento que escancara o grande fosso entre os poucos que têm e os inúmeros que deixam de ter.
Nas atuais férias de verão lá esse esgarçamento levou à necessidade de ativismo social voltado para a alimentação de crianças cujo padrão nutricional cai substancialmente quando da falta de alimentação escolar. Bancos de alimentos – o que poucos descartam atende a necessidade de muitos – estão sendo montados para atender filhos das classes mais carentes. Como entre esses se encontram de forma crescente brancos, fica claro que no neoliberalismo a proteção do governo só vale para quem está entre os 1% mais ricos.
No Brasil, onde princípios de universalização de direitos sociais só passaram a ser consagrados com a Constituição de 1988, o resultado de políticas explícita e implicitamente calcadas no neoliberalismo são igualmente trágicos. Trágicos social, econômica e ambientalmente.
Tragédias anunciadas com restrições a gastos com saúde, educação, habitação, transportes. Tragédias denunciadas com a privatização e desnacionalização de empresas públicas e privadas eficientes mas facilmente capturadas pela voracidade do capital financeiro com a ajuda de incentivos fiscais e financeiros por governos que se sucedem.
Tragédias ambientais provocadas pela inércia programada de órgãos governamentais que resultam na devastação de patrimônio natural e cultural em todo o país. Tudo em flagrante conflito com as possibilidades de no Brasil se estabelecerem bases de desenvolvimento humano construído com desenvolvimento econômico e diversidade cultural/ambiental.
Evidências do fracasso no neoliberalismo lá na Inglaterra, aqui no Brasil e acolá (alguém conhece onde ele deu certo?) continuam passando com pouca crítica por parte da mídia corporativa. Por isso têm pouco espaço para o seu enfrentamento nas estruturas de poder, com destaque para o Parlamento e o Judiciário.
Baixa possibilidade de enfrentamento que fragiliza a legitimidade da democracia e que abre espaços para a atuação de grupos de extrema direita, inclusive em momentos de eleições. Sinal de alerta para em quem votar para prefeituras e câmaras municipais em outubro.