Passados trinta anos desde a bem-sucedida implementação do Plano Real fica cada vez mais claro que a necessária busca de estabilidade de preços é insuficiente para gerar a estabilidade econômica. A hiperinflação — enfrentada e vencida pela maneira como o seu componente inercial foi identificado teoricamente e enfrentada com a bem orquestrada operacionalização do Real — tornava quase impossível o cálculo econômico que propiciasse investimentos produtivos que gerassem crescimento.
Reestabelecida a possibilidade de entendimento dos preços relativos de bens e serviços, o próximo passo seria a estabilidade da moeda, o crescimento econômico e a distribuição de renda para que então fosse alcançada a tão almejada estabilidade econômica. A estabilidade do Real durou pouco diante dos ataques especulativos sofridos pelas taxas de juros praticadas internamente e que geram altos rendimentos a baixo risco.
O crescimento econômico ficou durante boa parte desses trinta anos por conta do mercado e os resultados estão aí: taxas aquém das reais possibilidades de uma economia como a brasileira. O mercado se sentiu atraído quando das privatarias de empresas estatais rentáveis, bem operadas e que foram vendidas a preços e condições que só favoreceram aos compradores.
Além da privatização de empresas estatais, ocorreu também a desnacionalização de empresas privadas ao longo de cadeias produtivas dinâmicas como a do agronegócio, da mineração, das indústrias de bens duráveis, entre outras. O resultado é que os estímulo a essas atividades implicam em mais remessas de lucros às matrizes no exterior do que em aumento de investimentos no Brasil.
O estabelecimento de qualquer iniciativa governamental de estimulo ao crescimento econômico via ampliação da base produtiva e/ou a internalização de avanços tecnológicos sempre enfrentou a oposição dos apologistas do mercado enquanto altar superior. Para ele qualquer atividade que ocorra fora de seu pleno controle gera distorções via aumento dos gastos públicos e subsídios a segmentos fora dos interesses das exportações de commodities. Essas historicamente de baixo valor agregado e baseadas em recursos naturais não renováveis.
O crescimento estimulado pela inclusão dos pobres no orçamento governamental também sempre foi olhado com restrições pois, segundo o abstrato mercado, coloca em risco a estabilidade fiscal. Dispêndios constitucionalmente estabelecidos para saúde, educação, entre outros, foram e continuam sendo combatidos pelos interesses de quem está contemplado com quase 50% do gastos públicos com juros da dívida pública.
A necessária distribuição de renda, via taxação de grandes fortunas/heranças e distribuição de propriedades ociosas no campo e na cidades, é sempre contestada pelos arautos do estado mínimo e da propriedade privada. Estado mínimo em dispêndios para a maioria da população e máximo em benesses para os 0,1% mais ricos. Direito à propriedade mesmo quando ela deixa de cumprir suas funções sociais estabelecidas na Constituição.
Concentração de renda e de propriedade que coloca o Brasil nas piores colocações entre os dez países mais industrializados do mundo. Dentre eles também ocupa a pior colocação no que se refere à taxa básica de juros e aos spreads bancários.
Diante desse quadro, a celebração dos 30 anos do Real precisa se restringir ao que ele conquistou: a estabilidade de preços. Repita-se: necessária, mas longe de ser suficiente para a desejada estabilidade econômica no país.
Constatação simples, mas de difícil compreensão diante da pauta favorável aos interesses da financeirização globalizada sempre presente nas grandes redes de comunicação, em parte da academia e que inundam as redes sociais como se verdades absolutas fossem. Falta o debate esclarecedor de ideias e de propostas.
Falta justificada pelos interesses em jogo e que se fazem representar nos diversos segmentos da estrutura do Estado brasileiro. No Legislativo, no Judiciário e no Executivo primam benesses aos que mais têm e falta o tratamento adequado aos que inexistem para o mercado.
A inércia diante de medidas necessárias para o crescimento econômico sustentável ambientalmente e a melhor distribuição de riqueza faz do Brasil um país com estabilidade de preço, instável economicamente, esgarçado socialmente e com sérios riscos ambientais.
Economia, sociedade e tratamento de questões ambientais cujo futuro foi melhor no passado.