Em crônica publicada no Diário de Notícias em abril de 1969, Rubem Braga relata que:
“...enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha mas para não incomodar os moradores, avisava gritando: - Não é ninguém, é o padeiro!
Interroguei-o uma vez : como tivera a ideia de gritar aquilo? Então você não é ninguém?
Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera de bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera a dizer para dentro: 'Não é ninguém, não senhora, é o padeiro'. Assim ficara sabendo que não era ninguém...”
A invisibilidade de quem faz trabalhos considerados por muitos como menores só aumentou desde o registro feito pelo cronista. É crescente o número de pessoas que vão se tornando invisíveis na medida em que, através de seus uniformes e do trabalho que realizam, passam a ser desconsideradas por quem está por perto.
No filme ‘Que horas ela volta’, Val, a personagem empregada doméstica vivida por Regina Casé, é invisível pelas pessoas a quem serve canapés em uma recepção oferecida por seus patrões. Já o psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou dez anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são ’seres invisíveis’, ’sem nome’. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da ‘invisibilidade pública’, ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
A constatação da invisibilidade pode se dar através do relato de um cronista em 1969, de um mestrando em 2008 ou de uma diretora de cinema em 2015. Mais importante, pode ser constatada por um simples olhar atento de quem circula pelas ruas de nossas cidades. Feito isso é o necessário o seu reconhecimento como uma evidência contundente do crescente esgarçamento social pelo qual passa a sociedade brasileira como um todo.
A partir desse reconhecimento há que se buscar um consenso de que uma sociedade esgarçada prejudica direta ou indiretamente a todos. Como todos perdem há que se buscar no desenho e operacionalização de políticas públicas a superação de perdas morais, éticas e econômicas.
E isso pode ser feito em instâncias de poder mais próxima de onde os problemas surgem: o município. Por um lado, há que se cobrar de prefeituras e de câmaras de vereadores alocação de recursos para programas que tanto amenizem a crescente marginalização de pessoas do progresso econômico; quanto busquem quebrar o círculo vicioso da pobreza: filho de pobre, pobre será.
Por outro, há que se dar voz e vez a iniciativas da sociedade civil que buscam viabilizar recursos que permitam melhorias em bairros mais pobres e em favelas. Voz tanto em redes sociais quanto na cobertura pelos grandes veículos de comunicação. Pautas positivas sobre o que acontece na chamada periferia certamente podem contribuir para mudar os olhares distantes e indiferentes que muitos têm para com a invisibilidade de semelhantes de menor poder econômico e menos acesso a capital social e cultural.
Tornar o esgarçamento social tema do debate público pode ser um primeiro passo importante no sentido de superá-lo. Chega de seres humanos invisíveis para políticas públicas e para quem com eles interage através de um hierarquia social perversa.