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Socorro negado

Tragédia no cotidiano é subproduto direto da exclusão

O morador de rua - no Brasil, no Espírito Santo, em Vitória - é, na maioria das vezes, invisível por quem por ele passa

Publicado em 07 de Abril de 2022 às 02:00

Públicado em 

07 abr 2022 às 02:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Homem em situação de rua ficou desolado após a confirmação da morte da mulher
Homem em situação de rua ficou desolado após a confirmação da morte da mulher Crédito: Oliveira AlvesOliveira AlvesOliveira AlvesOliveira Alves
Este jornal em sua edição de 29 de março último teve como uma de suas manchetes "Morador de rua pede ajuda é ignorado e mulher morre afogada". Do corpo da matéria escrita pelo repórter Daniel Pasti consta, entre outros detalhes: "Uma mulher morreu afogada no mar da Curva da Jurema, em Vitória, na manhã desta terça-feira (29). A vítima chegou a ser vista por um morador de rua enquanto se afogava. Ele tentou chamar a atenção de pessoas que estavam em uma canoa havaiana, e também da Polícia Militar, mas não foi ouvido".
Fosse ficção estaríamos diante de uma tragédia. Dentre outras características, a tragédia tem uma ação inicial feliz, mas que tem um desfecho fatal. A ação feliz é a de um humano que busca ajuda para salvar uma pessoa que se afogava; busca socorro com outras pessoas e a quem deve zelar pela segurança das pessoas.
O desfecho fatal é a morte evitável provocada pelo fato de esse ser humano caracterizado como morador de rua ser invisível e inaudível para quem ele pediu ajuda. Tivéssemos aqui o abominável sistema de castas da Índia, é possível que uma vida fosse salva. O equivalente lá ao morador de rua é chamado de intocável. Mas é visto e ouvido em caso de emergências envolvendo pessoas de castas superiores.
O morador de rua - no Brasil, no Espírito Santo, em Vitória - é, na maioria das vezes, por um lado, invisível por quem por ele passa. Por outro, essa invisibilidade é ampliada pela falta de políticas públicas voltadas para o combate à pobreza. Se alguém tiver dificuldade de constatar esse descaso nas ruas da cidade, observe a constante redução de verbas governamentais voltadas para o combate à fome e à exclusão.
Exclusão em sua variantes econômicas, sociais e culturais que caracterizam a história do país, do Estado e de sua capital. Características que se ampliam quando quem está no exercício do poder pauta suas ações pela austeridade fiscal, dogma maior do neoliberalismo.
Dogma que repetido à exaustão pela mídia corporativa e em redes sociais passa a pautar o comportamento político e social de parcelas crescentes da população. Seu desdobramento e justificativa cínica é que "... só passa fome quem se recusa a trabalhar". Isso numa economia em frangalhos onde até emprego informal falta.
Diante de dogmas e terraplanismos como os que se fazem cada mais presentes no cotidiano da sociedade, há que ser recuperado o humano que existe em cada pessoa. Inclusive aqueles que nem são vistos ou ouvidos, como o morador de rua que inspirou essas linhas.
Ele se declarou desolado à reportagem de A Gazeta. Para além das justificativas diversas para o acontecido e que constam da matéria, há que se indignar com a exclusão e com o esgarçamento social que resultam em tragédias da vida como ela se apresenta.
De tanto se repetirem essas tragédias precisam mudar de nome: são crimes sociais com a gravidade daqueles de guerras que a muitos sensibilizam quando reportados pela mídia corporativa.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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