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Lélio Rodrigues: planejador e programador do desenvolvimento capixaba

Documento importante que mostra o seu legado para a economia capixaba é o que indicava o Espírito Santo como a melhor localização para a instalação de projetos da dimensão da CST, atual ArcelorMittal,  e da Aracruz Celulose, atual Suzano

Publicado em 21 de Abril de 2022 às 02:00

Públicado em 

21 abr 2022 às 02:00
Arlindo Villaschi

Colunista

Arlindo Villaschi

Lélio Monteiro
Lélio Rodrigues, durante solenidade em 2012 no Palácio Anchieta, onde recebeu a comenda Jerônimo Monteiro Crédito: Gabriel Lordêllo
Dois pilares deram a solidez necessária para sustentar a importante contribuição de Lélio Rodrigues, morto no último dia 9, para as transformações ocorridas na formação socioeconômica capixaba nas quatro última décadas do século XX. O primeiro, sua formação em escolas públicas de qualidade, culminando com sua graduação em agronomia pela reconhecidamente excelente Universidade Federal do Viçosa. Formação durante seus anos de grupo escolar e de Colégio Estadual que forjou um leitor atento, alguém que buscava escrever observando o sentido das palavras e o desenvolvimento do pensamento através delas.
Seus anos em Viçosa fomentaram e semearam nele um impulso permanente de buscar evidências que confirmassem e/ou negassem teorias e práticas. Daí sua reverência à estatística e à geografia e ao que ambas precisavam ser confrontadas e suplementadas com outras dimensões do conhecimento para que efetivamente pudessem contribuir para uma melhor aproximação daquilo que se pensa ser a realidade.
O segundo pilar de influência na formação acadêmica e política de Lélio foi a especialização que realizou em 1966 em problemas do desenvolvimento econômico. Fortemente influenciada pelas contribuições de Raúl Prébisch e de Celso Furtado, entre outros da escola cepalina, essa especialização foi fruto de uma parceria entre a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe – Cepal, da ONU; o Instituto Latino-americano de Planejamento Econômico e Social – ILPES; o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico – BNDE; que no Espírito Santo foi realizada em associação com a Ufes.
Nela Lélio ampliou seus olhares críticos para entender o desenvolvimento econômico para muito além tanto do que as forças de mercado conseguem responder quanto das soluções prometidas por receituários tecnocráticos. Desenvolvimento econômico precisa ser pensado a partir de condicionantes históricos que se deseja mudar, o que implica em buscar entender os problemas a serem superados e as restrições sócio-políticas-culturais-econômicas que embargam essa superação. Ou seja, problemas a serem equacionados da melhor forma possível cuja ‘solução’ é impossível ser encontrada na chamada TINA – there is no alternative, literalmente, só há um alternativa.
Evidências buscadas para uma melhor aproximação daquilo que era a formação socioeconômica do Espírito Santo nos anos 1950/60 e que Lélio contribuiu de forma singular para transformar no que hoje se entende por economia capixaba. Sem os dogmas do mercado tudo pode ou a ação planejada é o caminho.
Foi assim que Lélio legou a quem com ele conviveu e a quem se interessar no presente e no futuro por aspectos históricos da economia capixaba, sua rica contribuição intelectual. Cada documento, cada programa, cada formulação elaborada por ele estava especificamente voltado para transformar uma realidade que incomodava a quem achava que o Espírito Santo e sua gente mereciam maior e melhor.
Foram muitos documentos. Dos que reivindicavam recursos federais do Grupo de Recuperação da Cafeicultura – Gerca; dos que embasaram a luta política por incentivos fiscais para a economia capixaba, com destaque para o Decreto-Lei 880 de 1969; e os de ordem financeira, o estabelecimento no mesmo ano do Fundo de Desenvolvimento de Atividades Portuárias do Espírito Santo – Fundap. Dos que indicavam o Espírito Santo como a melhor localização para a instalação de projetos da dimensão da Companhia Siderúrgica de Tubarão – CST, atual ArcelorMittal; e da Aracruz Celulose, atual Suzano.
ArcelorMittal Tubarão, em operação há quase 40 anos, adota ações que valorizam o desenvolvimento sustentável
ArcelorMittal Tubarão, em operação há quase 40 anos no ES Crédito: Divulgação/ArcelorMittal Tubarão
Documentos que reivindicavam mais e melhor atenção dos programas do governo federal para com o Espírito Santo, Nordeste sem Sudene e ou alternativa no Sudeste para o crescimento fora do eixo Sanprio (São Paulo/Rio). Documentos também que, conquistadas algumas das reivindicações, alertavam para questões que dos Grandes Projeto emergiriam, como a concentração econômica na Grande Vitória e suas consequências sociais e ambientais.
A busca de antecipar-se no encaminhamento dessas questões instruíram a contribuição de Lélio através, entre outros, do Programa de Reestruturação Econômica do ES a partir dos Grandes Projetos – PRE, de 1975. Como pouco ou nada do que foi indicado aconteceu, suas formulações ganharam um outro escopo e uma nova vitalidade no texto que elaborou e que instruiu o projeto ‘Espírito Santo no Século XXI’, sob a articulação da Rede Gazeta. Importante reconhecer nesse projeto o último esforço de pensar e agir sobre a formação socioeconômica capixaba através do pensamento local.
O registro, ainda que superficial, da contribuição de Lélio para com o desenvolvimento capixaba se faz ainda mais necessário nesses tempos estranhos de terraplanismo e de tudo que isso instrui nas redes sociais e nos meios de comunicação corporativos. Tempos de endeusamento do mercado enquanto ser superior e único a que se deve reverenciar. Tempos de propostas de políticas públicas voltadas para responder de forma simplista às indicações de fluxos financeiros digitalizados. Tempos em que o ‘normal’ é aceitar isso como um fato ao qual os interesses locais devem se dobrar de forma acrítica.
A partida de Lélio deixa vazios n’alma de Tereza, Lélia, Letícia, Leandra e familiares; e de tantos que tiveram o privilégio de com ele conviver enquanto pessoa plena. Deixa também uma enorme lacuna para quem aprendeu a admirar e respeitar sua escuta atenta, seus questionamentos instigantes e sua escrita para leituras com mente aberta para o inovador.
Já faz falta aquele seu jeito maratimba de ser, como ele mesmo gostava de dizer. E nesses tempos de se desejar tecer um novo normal pós-Covid, a abertura que Lélio tinha para dialogar com o contraditório precisa ser reverenciada como um exemplo a ser seguido.

Arlindo Villaschi

É professor Ufes. Um olhar humanizado sobre a economia e sua relação com os avanços sociais são a linha principal deste espaço.

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