Das ocupações feitas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no Espírito Santo, 65 resultaram em assentamentos que abrigam mais de 2,7 mil famílias. Distribuídos em 25 munícipios capixabas ocupando um total de pouco mais que trinta mil hectares.
Para além dos números, vale a pena destacar o impacto econômico desse processo de assentamentos segundo os moldes da reforma agrária popular posto em prática pelo MST. Impacto econômico para as mais de dez mil pessoas que direta ou indiretamente deixaram o sub-emprego e a exclusão social no campo e na cidade e passaram a produzir e gerar renda para vida digna.
Impacto econômico para a economia das localidades onde se encontram os assentamentos. Comércio e serviços, principalmente os de menor porte em municípios menores, têm nas famílias assentadas clientela cuja demanda resulta em mais emprego e renda em seus territórios.
Para além de impactos econômicos dos assentamentos conquistados nos últimos 39 anos pelo MST no Espírito Santo, vale ressaltar outras ocupações feitas por esse que é reconhecido como dos mais importantes do campesinato no mundo. Dentre elas, a forma e o conteúdo como o movimento prioriza a educação em todos os níveis deve ocupar a imaginação de tantos quanto entendem a prioridade que ela tem para o presente e o futuro.
Para além do discurso geral nem sempre correspondido por ações, a educação de todos nos assentamentos ocorre como parte fundamental na vida das famílias assentadas. Seja a educação continuada de adultos, seja aquela voltada para a formação de cidadania plena para crianças e jovens. Em todos os níveis educação centrada na pedagogia da terra que inova com sua metodologia da alternância.
Alternância que permite crianças, adolescentes e jovens adultos a participarem de atividades em terras dos assentamentos, ao mesmo tempo em que frequentam escolas de qualidade em todos os níveis. Inclusive cursos técnicos e universitários.
O movimento também foi ocupando a admiração de tantos quantos acreditam na equidade entre homens e mulheres. A paridade na representação em todas as instâncias do MST deve servir como exemplo para organizações privadas e públicas onde a igualdade de oportunidades para homens e mulheres raramente se dá.
Também ocupa a admiração de quem se aproxima minimamente do que acontece em assentamentos do MST a forma e o conteúdo de valorização da diversidade étnica, sexual e de gênero. Tanto nas relações que os assentamentos têm com povos das florestas e das águas e quilombolas em suas diversas formas de atuação quanto com as pessoas LGBT entre os assentados.
A maneira como os assentamentos do MST no ES cuidam dos mais necessitados nos territórios onde atuam também diferencia a ação política do movimento quando comparada à de organizações públicas e privadas. E mais, durante a pandemia da Covid a solidariedade dos assentados para com quem precisava de alimentos saudáveis se expandiu para muito além dos territórios onde estão localizados.
Dada a dimensão econômica, social e política do MST no Espírito Santo vale propor que o que ele fez, faz e se propõe fazer no futuro seja objeto de mais estudos e mais debates nos veículos de comunicação. Estudos e debates que permitam a derrubada de cercas de preconceitos políticos. Cercas derrubadas e evidências de resultados demonstradas, ainda poderão restar posições contrárias ao MST.
Posições contrárias que se sustentarão na falta de reconhecimento dos nefastos resultados humanos e ambientais do modelo de sociedade crescentemente desigual construído no Espírito Santo desde a invasão europeia no século XVI. Diante de tudo o que aflige a quem acredita em outras possibilidades, vale superar barreiras ideológicas e permitir o debate que contemple resultados já apresentados pelo MST no estado ao longo dos últimos 39 anos.
Resultados com suas especificidades mas cujo processo de construção certamente é portador de futuro.