A divulgação da nova frente de avanços da inteligência artificial (IA) incorporada no ChatGPT ganhou novos contornos no debate público nas últimas semanas. Por um lado o senhor feudal tecnológico Bill Gates - que incorporou à sua Meta a OpenAI, empresa à frente da inovação – publicou nota técnica colocando o novo sistema como a última maravilha tecnológica a serviço da humanidade.
Por outro, Sam Altman, diretor executivo da OpenAI, se disse assustado com riscos possíveis dos avanços na tecnologia e alertou que a humanidade deve estar preparada para as consequências negativas da IA, entre as quais menciona ataques cibernéticos e desinformação.
E ainda na última semana de março centenas de especialistas e empresários, inclusive o também senhor feudal tecnológico Elon Musk, assinaram pedido de suspenção por seis meses nas pesquisas sobre IAs mais potentes que o GPT-4. O pedido alerta para os profundos riscos para a humanidade; solicita a criação de órgãos reguladores; e responsabilização por danos causados pela IA.
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Para além do necessário debate aberto e plural sobre novas fronteiras científicas e tecnológicas, das quais as envolvendo IA são as que mais exposição vêm tendo nos meios de comunicação, vale uma reflexão ampliada sobre ciência, tecnologia e participação da sociedade.
Todo avanço científico e tecnológico é fruto de um processo social que vai muito além da genialidade de uma pessoa. Nominar uma pessoa como o inventor por traz de um produto ou um processo simplifica a história de novos conhecimentos nos campos da ciência, da tecnologia e da inovação e cria uma áura de mérito individual que esconde da maioria da população interações de pessoas e saberes por trás dos avanços.
Nas últimas décadas essa questão ficou ainda mais nebulosa na medida em que os progressos científicos e tecnológicos passaram a ser creditados a empresas. Seja no caso das vacinas disponibilizadas para o combate à Covid 19, seja naqueles ligados às profundas mudanças provocadas pelas tecnologias dos conhecimentos e dos aprendizados o que é enaltecido junto à sociedade são nomes de empresas ou a de quem as criou.
Esse artifício de propaganda retira da discussão tanto a complexidade do processo de avanços no conhecimento científico e tecnológico quanto o uso de partes substanciais de recursos públicos envolvidos no financiamento deles. Como a ideologia dominante endeusa o mercado e os feitos de indivíduos (de pessoas ou empresas), à sociedade cabe muito pouco opinar.
As respostas a questionamentos de instituições ligadas a governos ou à sociedade civil quanto aos riscos do controle por parte de poucos de parte considerável do progresso científico e tecnológico são simplistas e geralmente resumem a breves notícias veiculadas nos meios de comunicação de massa. Na maioria das vezes são apresentadas como maravilhas sob a forma de novos processos e produtos que assegurarão futuro melhor para a humanidade como um todo.
Simplificações sobre questões complexas por trás de avanços científicos e tecnológicos e de como eles usam recursos públicos precisam ser analisadas criticamente com a participação da sociedade. Questões éticas sobre esses avanços e sobre como eles são financiados devem ser postos em termos que permitam uma compreensão maior por parte de quem pouco entende dos jargões de cientistas.
Afinal, avanços científicos e tecnológicos são coisas sérias demais para serem deixadas por conta de senhores feudais tecnológicos, de seus asseclas em laboratórios blindados como se isentos fossem e de instituições que deveriam ser públicas mas que cada vez mais apenas dizem amém aos interesses financeiros por trás desses avanços.