Denúncias de trabalho escravo no Brasil estão longe de ser novidade. A despeito da lei de 13 de maio de 1888, o uso do ser humano no processo produtivo em diversas atividades econômicas ainda nos dias de hoje se dá como se mera mercadoria fosse.
É passada a hora desse tipo de prática ser questionada para além do executar o que já determinam a Constituição e leis. Se os repetidos fatos constrangem quem coloca o ser humano acima de qualquer outro valor - principalmente o financeiro - se faz necessária uma visita às raízes históricas da escravidão social e econômica que ainda persiste na sociedade brasileira.
Na pós-invasão europeia das Américas, boa parte da ocupação econômica do território brasileiro se deu pelo uso violento de mão de obra de nativos e de negros escravizados. Até meados do século XIX, além dessas etnias, a dinâmica da formação brasileira contava também com portugueses que para cá foram trazidos para atividades secundárias que atendiam os interesses de senhores de engenho, extração de ouro, plantação de café e outras.
As ondas migratórias tanto de europeus quanto de asiáticos que se sucederam a partir da segunda metade do século XIX criaram no imaginário nacional a ideia de que os novos entrantes vinham para substituir a mão de obra de nativos ‘preguiçosos’, de negros ‘malandros’ e de portugueses ‘burros’. Para além das piadas de mau gosto que legitimavam esses preconceitos, os descendentes dos três pilares fornecedores de mão de obra para a dinâmica econômica nacional até há menos que 200 anos formam boa parte dos que passaram a constituir os excluídos social, econômica e politicamente no Brasil.
Excluídos que, na narrativa meritocrática dos que sempre contaram com benesses diretas e indiretas do Estado brasileiro, são os principais culpados da exclusão. Toda e qualquer iniciativa que buscou minimamente propiciar melhores condições de vida à maioria da população brasileira sempre sofreu rechaço de quem detêm parcelas do poder político nacional. Rechaço sempre presente quando são discutidos direitos trabalhistas, tentativas de universalização dos serviços de saúde e educação de qualidade e programas de transferência condicionada de renda, dentre outros.
Rechaço que ganhou força e musculatura durante os sombrios anos pós-golpe de 2016, principalmente durante o último exercício da presidência da república. Reavivados com cores fortes a partir de pronunciamentos e ações por parte do presidente e seus ministros, os preconceitos de todo tipo e monta passaram a ser normalizados e aceitos por parcela considerável da população.
Normalização e aceitação que estão na base de reações recentes por parte de segmentos sociais que buscam justificar as condições de trabalho escravo em atividades vitivinícolas do Sul do Brasil. Uma das mais contundentes consta da nota publicada em 27 de fevereiro passado pelo Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves. Nela consta que:
“... Situações como esta, infelizmente, estão relacionadas a um problema que há muito tempo vem sendo enfatizado e trabalhado pelo CIC-BG e Poder Público local: a falta de mão de obra e a necessidade de investir em projetos e iniciativas que permitam minimizar este grande problema. Há uma larga parcela da população com plenas condições produtivas e que, mesmo assim, encontra-se inativa, sobrevivendo através de um sistema assistencialista que nada tem de salutar para a sociedade.”
Ou seja, o acontecido é culpa de trabalhadores que, por terem acesso a um mínimo de assistência social por parte do governo, recusam-se a aceitar baixa remuneração e condições precárias de trabalho. Por mais que possa e deva criticar o conteúdo dessa nota de entidade do empresariado de Bento Gonçalves, ela deve servir de alerta para o que é visto como normal por muitos Brasil afora.
Visão do que é normal que precisa ser debatida pelos mais diversos segmentos da sociedade brasileira. Sem a explicitação das raízes e das consequências sociais, econômicas e políticas dos diversos tipos de escravagismo e de preconceitos presentes no seio dela, trabalho escravo e sexismo, dentre outras mazelas, continuarão manchando a vida nacional como ela se apresenta.