Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Política

Teremos uma sucessão presidencial muito tensa e complicada no Brasil

Sai fortalecida a importância do federalismo – vale dizer, dos governadores e dos prefeitos – na mediação política e na articulação da governança e da governabilidade

Publicado em 26 de Abril de 2025 às 02:00

Públicado em 

26 abr 2025 às 02:00
Antônio Carlos de Medeiros

Colunista

Antônio Carlos de Medeiros

É a boia do federalismo que está contendo a escalada de uma crise institucional no Brasil. Uma nova diástole na política, com um processo de descentralização.
Trata-se de uma nova política de governadores modelo século XXI, com protagonismo de governadores e prefeitos. A estadualização da política e do poder político.
Conjugada com a ascensão de uma espécie de poder moderador do Poder Judiciário, a estadualização da política contorna o nosso desequilíbrio institucional e a incapacidade do sistema político de construir maiorias estáveis de governo.
São dois movimentos interligados, em curso desde a pandemia. Uma “descentralização fiscal silenciosa”, assim descrita por Manoel Carlos Pires.
E uma descentralização de poder conquistada pelos governadores no período da pandemia da Covid-19. Governadores que representam a maioria do PIB e da força da sociedade brasileira.
A descentralização fiscal silenciosa resultou no crescimento das despesas de estados e municípios, que acumularam uma alta de 25% desde 2021, “mais do que o dobro do crescimento da economia no período”, pontua Manoel Pires.
Comparando com os gastos do governo federal, Pires mostra que em 2023 os gastos federais aumentaram, com a emenda da transição e o pagamento dos precatórios. Mas em 2024, diz ele, houve uma contração fiscal no governo federal. Entretanto, “os gastos nos estados e nos municípios continuam crescendo” – turbinados por transferências federais, emendas parlamentares e operações de crédito.
Já a descentralização de poder emergiu no auge da pandemia, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro, com sua pauta negacionista, desferiu ataques políticos aos governadores. Estes, então, se organizaram com ferramentas federativas.
Uniram-se através da criação e formação de consórcios, que estão de pé e operacionais até hoje. Por exemplo, o dos governadores do Nordeste e o dos governadores do Sul e do Sudeste. Formam a maioria do PIB e da população do país.
Criaram força política e um “espírito de corpo” federalista. Uma barragem política. E aprofundaram atenção especial às políticas públicas. Ou seja, o cuidado com a gestão, a governança e a entrega de serviços públicos.
Conjugado com o crescimento exponencial das emendas parlamentares para os municípios, este movimento fez renascer uma tradição do processo político brasileiro: a estadualização da política. A política brasileira sempre teve uma inequívoca dimensão regional. É centrada nos estados.
A lógica da carreira política brasileira é local e regional. Confere centralidade política aos governadores.
No final do dia, aqueles governadores e prefeitos que realizam uma boa gestão e fazem entregas despontam como lideranças que conseguem aglutinar a anarquia da fragmentação partidária e dão algum sentido ao modelo cacofonia da formação de opiniões. Opiniões líquidas. Da liquefação da política brasileira.
Tudo somado, sai fortalecida a importância do federalismo – vale dizer, dos governadores e dos prefeitos – na mediação política e na articulação da governança e da governabilidade. Uma boia que se formou para contornar a nossa disfuncionalidade político-institucional. Até quando?
A descentralização fiscal impulsiona a velha estratégia brasileira de “fugir para a frente”.
E a descentralização de poder também leva o sistema político disfuncional a “fugir para a frente”.
Esplanada dos Ministérios, com Praça dos Três Poderes ao fundo, em Brasília
Esplanada dos Ministérios, com Praça dos Três Poderes ao fundo, em Brasília Crédito: Ricardo Penna
No fiscal, o orçamento de 2026 que o próprio governo enviou ao Congresso aponta asfixia financeira em 2026 e possível paralisação da máquina pública (“shutdown”) em 2027.
No político-institucional, a descentralização de poder é bem vida, mas precisa estar contida no bojo de reformas políticas. São três as principais. O caminho do sistema eleitoral distrital misto. O caminho do federalismo cooperativo. E o caminho do semi-presidencialismo.
O alerta de provável “shutdown” mostra que teremos uma sucessão presidencial muito complicada.
O próximo presidente do Brasil vai assumir diante de uma “espada de Dâmocles”.

Antônio Carlos de Medeiros

E pos-doutor em Ciencia Politica pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaco, aos sabados, traz reflexoes sobre a politica e a economia e aponta os possiveis caminhos para avancos possiveis nessas areas

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Sede do STF, em Brasília
Impasse sobre royalties do petróleo no STF precisa ser superado com a lógica
Imagem de destaque
Segunda Ponte pode passar a ter três faixas como feito na 3ª Ponte
Imagem de destaque
Jardim sensorial: veja como criar um espaço que ativa os sentidos humanos

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados