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Política

Em Brasília, a ressonância da tensão pré-Sete de Setembro

Formou-se um consenso de que os atos a serem realizados representam um marco político do que vai acontecer daí em diante. Será um ponto de inflexão, portanto

Publicado em 04 de Setembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

04 set 2021 às 02:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Sem máscara
Jair Bolsonaro em cerimônia de 7 de Setembro no ano passado, em Brasília Crédito: TV Brasil
Esta semana, as manifestações que estão sendo preparadas para o dia 7 de setembro mobilizaram as atenções na mídia tradicional e nas redes sociais. Em Brasília, formou-se um consenso de que os atos a serem realizados representam um marco político do que vai acontecer daí em diante. Será um ponto de inflexão, portanto. Mas não se vislumbrou, até agora, cenário, digamos, benigno.
Na hipótese de as manifestações não serem pacíficas, ainda mais se ocorrer alguma tragédia, aponta-se a possibilidade de início do autogolpe – ou contragolpe, como ele agora anuncia – pretendido pelo presidente Jair Bolsonaro. Neste cenário de conflagração, o ato levaria o Judiciário e o Legislativo, apoiados por instituições democráticas da sociedade civil, a tomada de atitudes e decisões mais radicais, inclusive o início da tramitação do impeachment. Seria acionado o sistema democrático de freios e contrapesos.
Se as manifestações forem pacíficas, mas demonstrarem a permanência de relevante apoio popular ao presidente, isso o levaria a continuar apostando na radicalização e no confronto com o STF e o TSE. O que paralisaria a agenda do país, mais do que já está paralisada.
Aí, as reformas seriam abandonadas de vez e a insegurança jurídica e ausência de expectativas positivas na economia acentuariam a possibilidade de estagflação, a anomia social, o déficit de governança e, finalmente, a exasperação de empresários. Nesta hipótese de exasperação empresarial explícita, o presidente da Câmara, Arthur Lira, poderia tirar o impeachment da gaveta.
A preços de hoje, é assim que a mediana dos atores políticos de Brasília enxerga o marco do 7 de setembro. O fato é que, em qualquer circunstância, Bolsonaro já enveredou por um labirinto, tornando-se um pato manco refém do Centrão. Hipotecou perto de R$ 40 bilhões do orçamento de 2022 para o Centrão, os partidos políticos e as emendas parlamentares.
Ele reina, mas não governa. Na sua percepção, a sua rota de saída seria um autogolpe, que ele passou a chamar de contragolpe. Só nos resta aguardar o dia 8 de setembro e fazer um balanço da resultante.
Imaginar que Bolsonaro vai refluir e conviver com os outros poderes em harmonia não parece hoje crível. Se ele refluir, ele perde a sua milícia digital. Com ele, o presidencialismo de coalizão chegou ao fim e o sistema político tornou-se disfuncional e disruptivo.
Nesta semana, exemplos concretos da confusão institucional foram o corte das relações e do diálogo entre o presidente do Supremo e o presidente da República, e as críticas frontais do presidente da Câmara ao Senado da República. O clima está de vaca não reconhecer bezerro.
A única fresta de cenário benigno (?) que resta, nas avaliações de Brasília, é aquela em que os atos se transformassem em fiasco de popularidade para Bolsonaro. Será? Será que poderíamos então imaginar um cenário de voltar a falar de restauração do Estado brasileiro e construção de novo contrato social? Ou seja, um cenário de reconstrução e não de destruição? Saberemos quarta feira. Até lá, a tensão pré-7 de setembro.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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