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Brasil

A marcha da insensatez e o avanço da desintegração social

A perda de identidade nacional, produto da crescente ausência de normas e regras, criando a desarmonia na sociedade, continua à espreita

Publicado em 11 de Setembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

11 set 2021 às 02:00
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Presidente Jair Bolsonaro discursa durante ato favorável ao seu governo
Presidente Jair Bolsonaro discursa durante ato favorável ao seu governo Crédito: Danilo Verpa/Folhapress
A corda não arrebentou ainda. Agindo como oráculo, o ex-presidente Michel Temer levou um pouco de temperança para o presidente Bolsonaro. Ele recuou. As reações do Supremo, através do ministro Fux, e do TSE, através do ministro Barroso, foram firmes e fortes. Acenderam, para o presidente, a luz vermelha do fracasso. Daí, a aceitação do laivo de temperança levado por Temer.
Até quando? Bolsonaro trilha o conhecido roteiro do best seller “A marcha da insensatez”, de Barbara Tuchman. Um roteiro que tem três estágios, todos eles guiados pelo abandono da razão, a primeira característica da insensatez, segundo ela.
No primeiro estágio, a paralisia mental “fixa princípios e fronteiras”. No segundo estágio, “os princípios iniciais tornam-se rígidos”. A rigidez, diz ela, leva à necessidade de proteger os egos, e a política de repetição de erros cresce cada vez mais. Então, “mais inaceitável se torna o desengajamento”. Por fim, no terceiro estágio, a crescente iminência do fracasso “aumenta os prejuízos até causar a queda”. Bolsonaro está no limiar do terceiro estágio. A queda.
O diálogo de Temer foi providencial. Mas será preciso mais. A anomia social é crescente. Isso não é tertúlia sociológica. A desintegração social e a perda de identidade nacional, produtos da crescente ausência de normas e regras, criando a desarmonia na sociedade, continuam à espreita. São causas e efeitos da polarização política. Caldo de cultura para a criminalidade, a instabilidade político-institucional e a diáspora dos que estão descrentes do Brasil e vão embora porque acham que o país não tem futuro. Hoje, 4,2 milhões de brasileiros moram no exterior. Mudaram de mala e cuia. Muitos dos que estão aqui também pensam em ir embora.
Jair Bolsonaro ficou prisioneiro no próprio tumulto, vaticina José Casado. Como sempre, agora diz mais uma vez que vai voltar atrás e ensaia temperança. Diz uma coisa na rua, volta atrás, e tende a se desmoralizar. Estará na sombra do impeachment ou da inelegibilidade em 2022. Reina, mas não governa. A sua fragilidade é cada vez maior. O seu déficit de governança prenuncia contínua crise institucional. Portanto, diz Casado, Bolsonaro criou um ardil: o impeachment ou a inelegibilidade podem ser mais “baratos” do que a espada regressiva, na economia e na sociedade, da crise institucional com um presidente que não governa.
A expectativa, agora, é a de que o Brasil real - no labirinto da inflação, da pobreza, da crise hídrica, e do zig zag do câmbio e da bolsa – pressione as instituições. Isto é, pressione os partidos políticos para levar Arthur Lira a desengavetar o impeachment e o TSE para acelerar o processo que poderá resultar na inelegibilidade. Na toada atual, a fixação de Bolsonaro com um golpe crescente está resultando em efeito bumerangue e mais anomia. Agora, os caminhoneiros nas ruas. Depois, viriam os saques aos supermercados? Uma ampulheta está sobre a mesa.

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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