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Crônica

O consertador de panelas, um profissional em extinção

Soube que na feira do Bairro de Lourdes tinha um senhor que consertava cabos e, relevantíssimo, tampas de panelas de pressão. Lá fui eu, levando a minha

Públicado em 

21 jan 2022 às 02:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Panela antiga, grande, própria para fazer comida pra muitas bocas. Parte valiosa da herança que me coube na divisão das coisas da casa da minha mãe. Veio pra se juntar a uma outra, bem menor, mas de mesmo design, sem quina viva no encontro do fundo com a parede lateral. Feita de alumínio grosso, tem a parte de baixo abaulada, muito útil pro serviço de fritar alho e cebola para os refogados. Pois foi na nossa cozinha, depois dos tantos anos de uso diário, que o seu cabo se soltou.
Tenho boa experiência em consertar panelas velhas, inclusive colocando cabos de bambu de gomo curto, que proporcionam excelente pega. Mais uma vez tentei "fazer o meu melhor", como se diz por aí, agora usando araldite, poderoso recurso para usos variados que, nesse caso, se mostrou insuficiente para resistir aos esforços de tracionamento demandados.
A cena da queda da panela, patética e perigosíssima, aconteceu longe dos meus olhos, mas ouvi o barulho e a gritaria vindo da cozinha. Ao tirar do fogo, ela foi ao chão com o peso da água e das jabuticabas que colhi no jardim durante três dias seguidos, para fazer geleia, dessas azedinhas e travadas, que prefiro.
Soube, por fonte de confiança, que na feira do Bairro de Lourdes tinha um senhor que consertava cabos e, relevantíssimo, tampas de panelas de pressão. No domingo passado, lá fui eu levando a minha, disfarçadamente, numa dessas sacolas de fazer compras. Não foi difícil encontrar a banca apinhada de ferramentas, vidros de doce repletos de parafusos, rebites, arruelas, suportes, um martelo de borracha, um pé de ferro e muito mais. Confesso que fiquei com inveja do martelinho de cabeça redonda usado para golpear o que requer precisão.
Ele trabalhava sentado num banquinho, com um pano grande cobrindo as pernas e as costas apoiadas no paralama traseiro de um Fiat desses pequenos bem surrado. Sempre que necessário ele se virava para o lado, de modo a acessar o banco traseiro, espécie de prateleira repleta de cabos de todos os tipos, tampas variadas, panelas consertadas esquecidas pelos donos e coisas afins.
Mostrei o que havia levado e recebi a promessa de que consertaria em seguida. Aproveitei pra ir comprar três cordas de caranguejo, meio quilo de chouriço de porco e umas flores que tinha visto na vinda. Quando cheguei de volta ele estava começando o serviço. Escolheu o cabo, separou dois arrebites, o suporte e o parafuso e, conferiu se daria certo, colocou tudo no seu respectivo lugar e testou. Para completar o reparo, tratou de desamassar a borda, com o martelo de borracha e olhar de pontaria.
Perguntado, disse que o valor do conserto era R$ 17. Quis saber porque não cobrava R$ 20 e ele reafirmou, sem pestanejar, que era só R$ 17 e mais não disse. Aquilo me fez pensar que aquele homem é um dos últimos que se dedicam à arte dos consertos e reparos de coisas que vão quebrando e se desgastando com o uso diário. Um nobre e valioso cidadão, desses de grande utilidade pública, como são os sapateiros e os alfaiates.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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