Setembro entrou pra minha vida como o mês em que o vírus me pegou e fez de mim um homem frágil e de cabeça meio mole. Outubro, por sua vez, vai ficar marcado como o mês em que terminei de escrever um livro sobre as histórias das colheres de bambu. O texto começa com um breve relato dos acontecimentos após o infarto que tive, logo depois do Natal de 1994.
Com a sobrevivência garantida à custa de remédios, alimentação controlada e exercícios diários, me vi diante de uma situação inusitada: dias inteiros sem nada pra fazer, livre de qualquer obrigação fora de casa, exceto a de ir andar na areia da praia em busca de forças e saúde.
Para ocupar as mãos sem os cigarros, comecei a cortar bambu por horas seguidas. Mais adiante, passei a escrever, diariamente e num computador novinho, sobre o que havia acontecido antes e depois do tal evento coronariano. Sempre acreditei que escrever ajuda a ordenar as ideias e a reviver as emoções.
A partir de abril do ano passado, com a chegada da pandemia impondo fortes limitações ao convívio e à circulação fora dos muros, me vi diante de uma situação parecida com aquela: o que fazer para aproveitar o tempo disponível. Conversando sobre isso com Carol, ela me perguntou porque eu não aproveitava para escrever as boas histórias acontecidas por conta dessa mania muito prazerosa de fazer colheres. Lá atrás ela tinha feito algo parecido, com o mesmo sorriso instigante estampado no rosto. Boas ideias, estímulos e desafios são ótimas provocações para quem esteja sem saber o que fazer.
Assunto é o que não faltava. Arquivos de computador e gavetas cheias de papéis, fotos, revistas e recortes de jornais poderiam ajudar a refrescar a memória e garantir autenticidade dos fatos e situações vividas. Difícil mesmo foi selecionar e ordenar os mais interessantes, seguindo uma sequência consistente. Além disso, haveria que destacar pensamentos e conceitos que poderiam ajudar a dar sentido para tudo aquilo. Tempo era o que não faltava, curiosidade também não.
O exercício seguinte foi sair digitando sem preocupação. Novamente o serviço de pressionar teclas do computador disputou a vez com as atividades de cortar, raspar e lixar bambu. Isso, com uma vantagem: nas horas diante da bancada, livre das exigências de atenção concentradas nas mãos, a cabeça se ocupava das histórias. No começo deste ano, mais de 180 páginas haviam sido escritas com letra de corpo 11.
De lá pra cá, com a contribuição de muita gente querida, foi tempo de fazer desbastes, remendos e correções do meu português ruim, excluir palavras repetidas, incluir passagens esquecidas, etc. Tudo isso, em paralelo ao serviço de localizar e produzir fotos para ilustrar o que está escrito nas 137 páginas que resistiram. Manaira, minha filha, está vindo de São Paulo para começar a definir o projeto gráfico.