Publicado em 9 de agosto de 2021 às 13:10
Pela primeira vez, os cientistas do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU) quantificaram em um relatório o aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos ligados às mudanças climáticas. >
O documento, que apresenta as bases da ciência física do clima, foi divulgado nesta segunda-feira (9), assinado por 234 autores de 65 países. >
A ciência climática já previa nas últimas décadas o aumento de eventos extremos, como tempestades, enchentes, furacões, ciclones, secas prolongadas e ondas de calor. Agora, com modelos computacionais mais modernos, passou a ser possível atribuir o grau de influência das mudanças climáticas nesses eventos, calculando-se quantas vezes mais frequentes e mais intensos eles se tornam em função do aquecimento global. >
Ondas de calor já triplicam no mundo atual em comparação com o período de 1850 a 1900 — antes das atividades humanas aumentarem a concentração de gases-estufa na atmosfera. >
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Variações extremas de temperatura que aconteciam uma vez por década hoje podem ocorrer 2,8 vezes no mesmo período e devem se tornar anuais em um cenário de 4ºC de aquecimento global, em que as mudanças abruptas de temperatura podem ser mais intensas, chegando a 5,1ºC de variação. >
Já as temperaturas extremas mais raras, que ocorriam uma vez a cada 50 anos entre 1850 e 1900, hoje têm probabilidade de ocorrer 4,8 vezes no mesmo período e podem passar a ocorrer 39 vezes em um cenário de mais de 4ºC de aquecimento global. >
As chuvas fortes e as secas prolongadas também ficam mais frequentes e mais intensas. No cenário atual, em que o mundo já se aqueceu 1ºC na média global, episódios extremos que ocorriam uma vez por década já podem ocorrer 1,3 vez no caso das tempestades e 1,7 vez para as secas no mesmo período. O volume de água das tempestades já é 6,7% maior e pode chegar a 30,2% no pior cenário. As secas agrícolas e ecológicas podem ficar até 4 vezes mais presentes em um período de 10 anos, com solos cada vez mais secos, por mais tempo. >
As projeções regionais do IPCC mostram aumento das chuvas fortes no Centro-Sul do Brasil, com grandes volumes de água concentrados em até cinco dias de chuva, enquanto o Nordeste e a Amazônia devem sofrer com períodos secos mais prolongados. >
No cenário extremo de aquecimento global de 4ºC, além das mudanças serem mais drásticas nos quadros de chuvas fortes e secas, o país também deve ver alterações mais marcantes no volume de precipitação anual, que fica mais escasso na região Norte e mais volumoso no Sul e Sudeste. >
Na maior parte do país — região que abrange Norte, Centro-Oeste, Sudeste e parte do Nordeste — há projeções de aumento de secas agrícolas e ecológicas para meados do século, em um cenário de aquecimento global de 2°C. Com a aridez, também se espera o aumento de climas propícios para incêndios, com impactos para os ecossistemas, a saúde humana, a agricultura e a silvicultura. >
Na Amazônia, o número de dias por ano com temperaturas máximas superiores a 35°C aumentaria em mais de 150 dias até o final do século no cenário de aquecimento global superior a 4°C, enquanto se espera que aumente em menos de 60 dias no cenário de aquecimento limitado a 2°C. >
"A Amazônia é uma região sensível às mudanças climáticas e é uma das regiões que podem sofrer os maiores impactos, por conta da sua localização tropical. As regiões tropicais vão ser as grandes prejudicadas pelo aquecimento global e isso atinge diretamente o Brasil", diz o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e membro do IPCC. >
Ele também cita o impacto do aumento do nível do mar — que pode avançar cerca de um metro nas próximas décadas — para regiões costeiras, destacando capitais e estruturas como o Porto de Santos. >
"Produtores de vários estados já sentiram, na última safra, os efeitos da menor umidade oriunda da Amazônia, que está aos poucos se tornando mais seca. Corretivos de solo, fertilizantes, drones e demais tecnologias não conseguirão corrigir os efeitos de temperaturas mais altas e padrões de chuva cada vez mais irregulares", diz Maurício Voivodic, ambientalista e diretor-executivo da ONG WWF-Brasil. Segundo ele, o recado do painel científico da ONU deve ser ouvido pelo agronegócio brasileiro. >
A própria ONG também sofreu o impacto dos extremos climáticos em sua atuação no campo. As geadas e temperaturas negativas registradas em julho na região da serra da Mantiqueira (divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais) afetaram diretamente até 80% das áreas em que faz restauração florestal. Em apenas uma das 18 áreas de replantio, a organização contabilizou a perda de 20 mil mudas. >
Ao revisar a ciência física do clima, o novo relatório do IPCC também reforça as bases científicas sobre a influência humana no passado e no futuro do clima, detalha a ação de outros gases de efeito-estufa para além do carbono, faz projeções de prazo mais longo sobre o aumento do nível do mar e ainda calcula como os fatores de impacto do clima mudam em todas as regiões do mundo. Na sexta-feira (6), o relatório foi aprovado pelos representantes dos 195 governos que compõem o painel científico da ONU. >
O estudo é a primeira parte, dedicada à ciência física do clima, de uma série de quatro avaliações. No próximo ano, o painel científico da ONU deve divulgar as seções sobre impactos, vulnerabilidade, adaptação e mitigação. Há ainda uma última edição de síntese que concluirá o sexto ciclo de revisões da ciência climática do painel científico da ONU. Desde 1988, foram cinco grandes relatórios que revisaram o conhecimento científico global e alertaram o mundo sobre a crise climática. >
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