Parece marchinha de carnaval (de muito mau gosto), mas é a fala do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI): “Nós não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo. F***-se”!
Seguramente, o erro de concordância e o palavrão não são as coisas mais grotescas na fala. Há uma carga semântica explosiva. Mas é preciso contextualizar: O ministro estava falando do acordo parlamentar para derrubar o veto presidencial sobre o “orçamento impositivo” e a provável perda de poder do presidente sobre a execução orçamentária.
Então, “esses caras” são os parlamentares; “chantagear” é votar contra o presidente; e o f***-se... Ah, esse pertence a outro universo semiótico. Mas, antes que os fanáticos comecem a me “emprateleirar” à esquerda ou à direita, eu peço, carinhosamente, que terminem a leitura (aqueles que sabem ler – é claro).
O general Heleno é um homem de passado inatacável, formação impecável, culto, educado, elegante e todos os demais adjetivos elogiosos cabíveis. Pois é, o que faz um homem “assim” produzir uma frase “daquelas”!? Analisemos: A eleição de 2018 foi um incrível carnaval que corre o risco de acabar em triste quarta-feira de cinzas (e com ressaca).
Foi “atípica” em diversos aspectos e, certamente, motivará algumas teses de doutorado nas ciências humanas. Foi a eleição dos autointitulados outsiders. Ou seja, todos os candidatos/políticos que desejavam se eleger declararam, “desavergonhadamente”, que não eram políticos. Teve de tudo: Não sou político, sou gestor, sou técnico, sou gerente, sou oficial, sou um pai de família, sou zagueiro do Flamengo e etc...
Houve, ainda, aqueles que, não podendo negar a qualidade de políticos, saíram com a ideia genial de se dizerem membros de uma tal “nova política” (da qual jamais se soube nem se teve notícia). Foi de arrepiar! Ver cidadãos com mais de 30 anos ocupando cargos políticos e negando, a qualquer custo, tal condição. É fato que a imagem extremamente desgastada, pós-Lava Jato, contribuiu para tal fenômeno. Mas e agora!?
Na Itália, depois da Operação Mãos Limpas, elegeram o autodeclarado “não político” Silvio Berlusconi; À deriva, a Hungria elegeu pela 3ª vez o “não político” Viktor Orbán; A Turquia elegeu o “impressionante” Recep Tayyip Erdogan que cunhou a não menos impressionante frase: “A democracia é como um comboio: quando se chega ao nosso destino, saímos”.
E fez exatamente o que expressou. Isto é que é originalidade! Aqui, dirijo-me a TODOS os irmãos brasileiros, de direita, de esquerda, de centro, dos cantos e da caserna, para dizer gritando: Não existe solução fora da política; política é linguagem de Estado; não se tem notícia de experiência humana bem-sucedida fora da política; não existe “nova” política; e não votem em candidatos que se declaram “não políticos” (são mentirosos por definição).
É preciso exercitar o consenso, a negociação, o convencimento (nunca o conluio, a negociata e a coação). Provavelmente, o general quis, na triste fala, reescrever Millôr Fernandes: “Democracia é quando eu mando em você; ditadura é quando você manda em mim.” Faça assim comigo não, general. Eu gostava tanto de você!