Publicado em 23 de novembro de 2023 às 18:13
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, e os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes reagiram nesta quinta-feira (23) à aprovação de PEC que limita as decisões individuais dos integrantes da corte.>
Barroso disse que a erosão das instituições em países que recentemente viveram retrocesso democrático começou por mudanças nas supremas cortes. "Os antecedentes não são bons", disse, em resposta à aprovação da proposta no Senado.>
Ele afirmou que o tribunal não vê razão para mudanças constitucionais que visem a alterar as regras de seu funcionamento. "O STF é alvo de propostas de mudanças legislativas que, na visão da corte, não são necessárias e não contribuem para a institucionalidade do país.">
Barroso acrescentou que, em um país com demandas importantes e urgentes, que vão do avanço do crime organizado à mudança climática que impacta a vida de milhões de pessoas, nada sugere que os problemas prioritários do Brasil estejam no STF.>
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"Até porque as mudanças sugeridas já foram acudidas, em sua maior parte, por alterações recentes no próprio regimento do Supremo.">
O presidente do STF disse que o Senado e seus integrantes "merecem toda a consideração institucional do tribunal", assim como respeito às deliberações daquela Casa Legislativa.>
Porém, afirmou que a vida democrática é feita do debate público constante e do diálogo institucional, "em busca de soluções que sejam boas para o país e que possam transcender as circunstâncias particulares de cada momento".>
"Cabe ao Supremo fazer valer Constituição, preservar a democracia e proteger direitos fundamentais. A pergunta a se fazer é a seguinte: esses objetivos foram alcançados? A resposta é afirmativa. Isso significa que o Supremo Tribunal Federal cumpriu o seu papel e serviu bem ao país. Não há por que alterar o que vem funcionando bem", disse.>
Barroso também ressaltou que, nos últimos anos, o STF enfrentou o negacionismo em relação à pandemia, "salvando milhares de vidas, o negacionismo ambiental, enfrentando o desmatamento da Amazônia e a mudança climática, bem como funcionou como um dique de resistência contra o avanço autoritário".>
Também falou que, por essa atuação, o tribunal sofreu ataques verbais e "a criminosa invasão física que vandalizou as instalações da corte", referindo-se ao 8 de janeiro.>
"Após esses ataques verbais e físicos, o tribunal vê com preocupação avanços legislativos sobre sua atuação. Nos últimos 35 anos, o Brasil viveu situações institucionais complexas, que em outros tempos teriam levado à ruptura constitucional e democrática: crises econômicas, inflação descontrolada, escândalos de corrupção e dois impeachments. Apesar de tudo o que ocorreu, o país preservou a estabilidade institucional e a democracia", disse.>
Já Gilmar Mendes disse que o STF "não irá submeter-se ao tacão autoritário, venha de onde ele vier, ainda que escamoteado pela representação de maiorias eventuais".>
Gilmar Mendes
Minnistro do STFEle também disse que a medida é "a ressurreição de um cadáver outrora enterrado" e que já havia sido rejeitada pelo parlamento em 2020.>
Afirmou ainda que o STF não se curvou à ditadura militar e não sucumbiu ao populismo iliberal responsável pelo trágico 8 de janeiro e que a separação de Poderes é cláusula pétrea e não pode ser objeto de emenda constitucional.>
"O fato é que este STF, sempre atento às suas responsabilidades institucionais e ao contexto que o cerca, está preparado para enfrentar, uma vez mais e caso necessário, as investidas desmedidas e inconstitucionais provenientes, agora, do Poder Legislativo", afirmou.>
Alexandre de Moraes disse que o aprimoramento das instituições são importantes e instrumentos da democracia, "mas não quando escondem insinuações, intimidações e ataques à independência do STF" e que a corte não é composta de covardes nem de medrosos.>
"Tenho absoluta certeza que, sob a presidência de vossa excelência [Barroso], o STF demonstrará coragem na defesa da garantia do poder judicial, não em favor do tribunal, ou de juízes e juízas, mas da sociedade.">
A PEC (proposta de emenda à Constituição) foi aprovada com 52 votos a 18, de 49 que eram necessários. O texto agora segue para avaliação da Câmara dos Deputados. No Senado, o líder do governo na Casa, Jaques Wagner (PT-BA), votou a favor da proposta.>
A PEC define que as chamadas decisões monocráticas não podem suspender a eficácia de uma lei ou norma de repercussão geral aprovada pelo Congresso e sancionada pela Presidência da República — para isso, obriga que haja decisões colegiadas.>
Foram ajustados alguns trechos do texto original, com a retirada, por exemplo, de um ponto que limitava o pedido de vista em julgamentos — uma vez que a ex-ministra Rosa Weber já alterou o regimento do Supremo para restringir este dispositivo, que acabava postergando as decisões da corte.>
Outra mudança que atenuou a proposta original foi a exclusão do escopo da PEC das decisões da Presidência da República, como decretos ou nomeações, que estavam previstas inicialmente.>
Entenda o que muda com a PEC>
Como é>
Ministros do STF podem deliberar monocraticamente sobre qualquer tema envolvendo os outros Poderes e instâncias administrativas; mudança recente no regimento interno da corte definiu que decisões liminares dos magistrados precisam ser confirmadas pelos outros membros no plenário virtual em até 90 dias.>
Como ficaria>
Se aprovada, a proposta proibirá decisões monocráticas para suspender eficácia de lei aprovada pelo Congresso e sancionada pela presidência; somente o presidente da corte, atualmente Luís Roberto Barroso, poderia decidir monocraticamente e durante o período de recesso judiciário, com análise do resto do tribunal em até 30 dias após o retorno das atividades.>
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