Publicado em 18 de março de 2022 às 12:51
O Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) decidiu por unanimidade admitir as representações que pedem a cassação do mandato do deputado Arthur do Val (sem partido) por quebra de decoro parlamentar.>
A decisão foi tomada em reunião do grupo na manhã desta sexta (18).>
Assim, o colegiado começa oficialmente o julgamento do processo que reúne 21 representações pedindo que Arthur, o Mamãe Falei, perca o seu mandato por conta de áudios nos quais ele diz, entre outras coisas, que as mulheres ucranianas "são fáceis porque são pobres". >
Na quinta (17), a o deputado enviou sua defesa prévia à Alesp alegando que as mensagens de Arthur não poderiam servir de prova no processo por serem conteúdo privado enviado a um grupo de amigos e que foi vazado ilicitamente.>
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O advogado do deputado, Paulo Bueno, também alegou que as mensagens foram enviadas de fora do Brasil, quando ele estava na Eslováquia, o que tornaria o conselho de ética sem competência para julgar o caso.>
A argumentação ainda apontava que Arthur estava licenciado quando se manifestou com as falas sexistas, nas quais também dizia que a fila de refugiados da guerra tem mais mulheres bonitas do que a "melhor balada do Brasil".>
Com isso, Arthur terá um novo prazo de cinco dias para apresentar a defesa de mérito. Em seguida, é definido o relator, responsável pela formulação de um parecer que será votado pelo colegiado -antes de ser enviado para apreciação no plenário da Casa.>
A presidente do conselho, deputada Maria Lúcia Amary (PSDB), já afirmou que a relatoria vai ficar a cargo do deputado Delegado Olim (PP). Olim esteve ausente da votação nesta sexta.>
O conselho é composto de nove deputados. Adalberto Freitas (União Brasil), Barros Munhoz (PSDB), Campos Machado (Avante), Enio Tatto (PT), Erica Malunguinho (PSOL), Marina Helou (Rede), Amary (PSDB) e Wellington Moura (Republicanos) votaram a favor da admissibilidade do processo, assim como o corregedor da Casa, Estevam Galvão (União Brasil).>
O órgão rejeitou o argumento da defesa que alega a "extraterritorialidade do suposto ilícito", já que as mensagens foram enviadas de fora do país, para desqualificar o conselho como competente para julgar o processo.>
"É tão estapafúrdia a posição [da defesa]. Imaginem, vocês todos, colegas deputados, se sai um deputado estadual de São Paulo e vai a um país e mata uma pessoa, dá um tiro na cabeça de uma pessoa. Ele é impune porque não estava no Brasil?", questionou Munhoz. "É tão submetido à consideração nossa alguém que faça um despautério como foi feito, fora do Brasil ou dentro".>
O colegiado também não acatou o pedido feito pela defesa de Mamãe Falei para tornar Helou suspeita para participar da apreciação do processo. Segundo o advogado do deputado, ela seria "imparcial" por já ter se manifestado pela cassação de Arthur em uma reunião da CPI das Ações e Omissões no Combate à Violência contra Mulher tocada pelo Legislativo paulista.>
Na reunião desta sexta, Helou disse "lamentar que ele [Mamãe Falei] ainda não tenha aprendido nada com esse episódio e tenha novamente tentado silenciar uma mulher na política". >
O deputado Arthur do Val e o coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL), Renan Santos, foram à Ucrânia no começo de março para, de acordo com os dois, ajudar ucranianos em meio à guerra contra a Rússia -inclusive com a doação de dinheiro.>
Na viagem, Mamãe Falei enviou mensagens em formato de áudio para um grupo de WhatsApp que, segundo ele, reunia amigos do futebol. As mensagens acabaram vazando.>
Os áudios geraram uma crise em torno dele -que virou alvo das representações pedindo a cassação do seu mandato--, do MBL e de figuras ligadas a eles, como o pré-candidato à Presidência da República Sergio Moro.>
O ex-ministro de Jair Bolsonaro se aliou ao MBL para alavancar a sua candidatura ao Planalto. Ele apoiava Arthur como postulante ao Governo de SP pelo Podemos, o que serviria de palanque para Moro no território paulista.>
Mas o também ex-juiz da Lava Jato abandonou o deputado tão logo as mensagens de Mamãe Falei vieram a público. Moro passou a repudiar as falas de seu até então aliado.>
Em entrevista à Folha, Arthur se disse "chateado" por ter sido rapidamente rechaçado pelo ex-juiz.>
"Não tenho direito de atrapalhar ninguém. Não é justo que Rubinho [Nunes, vereador, membro do MBL e pré-candidato], Kim [Kataguiri, deputado e membro do MBL] e Moro paguem pelo meu erro", disse Arthur.>
A relação entre o deputado e o ex-ministro, porém, já virou munição contra Moro. O também presidenciável João Doria (PSDB) avalia que o caso de Arthur fragilizou a candidatura do ex-juiz. O tucano compete com o curitibano para ser o nome nas urnas representando a terceira via.>
Moro rebateu o governador paulista, afirmando que se desvencilhou do deputado. O ex-ministro e o MBL, no entanto, dizem que a relação entre eles segue "firme e forte". Mas o movimento deixou o Podemos, como informou a coluna Painel.>
Arthur já afirmou que o conteúdo das mensagens foi uma "idiotice gigantesca" e que o que ele falou foi "um erro em momento de empolgação" quando cruzou a fronteira da Ucrânia para a Eslováquia -momento em que, segundo ele, saiu de um ambiente de tensão para um local de "alívio".>
Mas o forte repúdio público às falas do paulistano fez Arthur abdicar da candidatura ao Palácio dos Bandeirantes, desfiliar-se do Podemos e deixar o MBL.>
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