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Exuberância da segunda noite na Sapucaí deixa disputa imprevisível

Exuberância da segunda noite na Sapucaí deixa disputa imprevisível

O sorteio que definiu a ordem dos desfiles concentrou no domingo as escolas consideradas mais competitivas atualmente. Três das quatro primeiras colocadas de 2019 se apresentaram no primeiro dia

Publicado em 25 de fevereiro de 2020 às 17:44

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Desfile da escola de samba Salgueiro, no grupo especial do Carnaval 2020. (Marcelo Fonseca/Folhapress)

Ao contrário do que se esperava, a segunda noite de desfiles das escolas de samba do Rio teve nível técnico superior ao da primeira. Três das quatro primeiras escolas a desfilar se credenciaram para o título: Vila Isabel, Salgueiro e Unidos da Tijuca. Na disputa pelo campeonato, elas se somam a Viradouro e Portela, que se destacaram na primeira noite. A apuração acontece na tarde da quarta-feira (26).

Entre as demais escolas da segunda noite, a São Clemente fez o desfile divertido que se esperava dela, mas com a única pretensão - aparentemente alcançada - de se manter na elite, e a Mocidade - escola que, pelo enredo, gerou mais expectativa nessa segunda noite - homenageou a cantora Elza Soares e emocionou, mas teve problemas pontuais - de evolução, por exemplo. A Beija-Flor começou muito bem seu desfile, mas depois os integrantes precisaram correr para terminar o desfile no prazo permitido de 70 minutos.

O sorteio que definiu a ordem dos desfiles concentrou no domingo as escolas consideradas mais competitivas atualmente. Três das quatro primeiras colocadas de 2019 se apresentaram nesse dia: a campeã Mangueira, a vice Unidos do Viradouro e a quarta colocada, Portela. As três fizeram ótimos desfiles, mas Viradouro e Portela se destacaram mais. As demais escolas da primeira noite sofreram com problemas técnicos, falta de dinheiro ou ambos.

VILA ISABEL

A escola mais bem colocada de 2019 a desfilar na segunda noite foi a Vila Isabel, terceira melhor naquele concurso. Em um ano repleto de enredos não patrocinados e cheios de críticas sociais, a Vila Isabel despontou como candidata ao título em 2020 justamente com um tema que se pretendia patrocinado e com o qual até a semana passada a direção da escola reclamava que tivera prejuízo.

Em maio de 2019, a escola da zona norte do Rio firmou um termo de cooperação com o governo de Brasília: faria em 2020 um enredo em homenagem aos 60 anos de fundação de Brasília e ofereceria cursos de capacitação para as escolas de samba da capital federal, que não tem desfiles oficiais há seis anos. Em troca, o governo de Brasília ajudaria a escola a captar verbas para o desfile por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

Desfile da escola de samba Vila Isabel, no grupo especial do Carnaval 2020 . (Julio Cesar Guimarães/UOL/Folhapress))

Essa lei permite que empresas e pessoas físicas destinem para projetos culturais o dinheiro que usariam para pagar impostos. O projeto apresentado pela Vila Isabel previa captação de R$ 4,99 milhões. Ao menos até o dia 17 de fevereiro, porém, nenhum tostão havia sido arrecadado por meio dessa lei. O enredo acabou deixando Brasília em segundo plano: a partir de um conto indígena, a escola apresentou a formação dos povos das regiões brasileiras e, ao final, a fundação de Brasília. A capital federal já havia sido enredo em 2010, quando completou 50 anos, e naquela ocasião rendeu o terceiro lugar à Beija-Flor.

Antes de tudo, a Vila Isabel inovou ao criar o posto de rainha da escola - normalmente, as mulheres famosas que desfilam à frente dos ritmistas recebem o título de rainha da bateria, e não da escola inteira. A apresentadora Sabrina Sato, que foi rainha da bateria da Vila Isabel durante nove anos, de 2011 a 2019, neste ano foi substituída pela dançarina e modelo Aline Riscado, mas desfilou à frente da escola, acompanhada por Martinho da Vila, presidente de honra da Vila Isabel. A dupla causou frisson na plateia e ofuscou a comissão de frente, que vinha logo em seguida.

Com carros alegóricos e fantasias luxuosas e com excelente acabamento, a escola também contou com um samba animado, cujo refrão fazia uma ode a si mesma: "Sou da Vila, não tem jeito / Fazer samba é meu papel / Fiz do chão do Boulevard meu céu", diz a letra.

A escola terminou o desfile aos gritos de "é campeã". "Neste ano todo mundo resolveu caprichar em tudo. Então a Vila veio no capricho e na alegria, e contagiou. Sábado eu estou aí", garantiu Martinho da Vila, referindo-se ao desfile das campeãs, que ocorre no próximo sábado e reúne as seis escolas mais bem colocadas do ano.

SÃO CLEMENTE

Antes dela desfilou a São Clemente, que levou para a avenida o enredo "O Conto do Vigário", sobre as enganações a que o povo brasileiro foi submetido ao longo da história e às tentativas de se dar bem enganando os outros. O enredo foi exatamente igual ao apresentado pela Acadêmicos de Vigário Geral, que integra a segunda divisão e desfilou na última sexta-feira, 21.

Naquele desfile, o destaque foi um carro alegórico que representava o presidente da República, Jair Bolsonaro, como o palhaço Bozo fazendo com a mão o símbolo de uma arma.

Desta vez, Bolsonaro não foi representado em escultura, mas pelo humorista Marcelo Adnet, que é um dos autores do samba-enredo da São Clemente, cheio de menções a fake news e a laranjas.

Marcelo Adnet interpreta Jair Bolsonaro na São Clemente . (Julio Cesar Guimarães/UOL/Folhapress)

O humorista desfilou no quarto carro alegórico e atravessou a Sapucaí fazendo imitações de Bolsonaro. Além de jogar laranjas para a plateia, fez uma série de gestos tradicionais do presidente, como a 'arma' com as mãos, a continência militar e até desajeitadas flexões de braço.

"O brasileiro é muito bom de fazer piada com a sua própria desgraça", disse Adnet ao final do desfile. "O conto do vigário é isso: uma coisa que começa engraçada, uma malandragem inocente, que depois é institucionalizado e vira uma coisa mais séria", refletiu.

SALGUEIRO

Logo após a Vila desfilou o Salgueiro, escola frequente candidata ao título, desta vez apresentando a história de Benjamim de Oliveira (1870-1954), o primeiro palhaço negro do Brasil.

Assim como a Vila, o Salgueiro apresentou alegorias e fantasias luxuosas, e uma crítica social mais ácida: o palhaço representado no último carro alegórico movimentava o braço para esconder o rosto negro com uma máscara branca.

Entre as diversas celebridades que desfilaram na escola da zona norte, a bateria e seu redor reuniam duas das mais cultuadas: a rainha (da bateria) Viviane Araújo e o cantor Xande de Pilares, que não cantou, mas acompanhou os intérpretes Émerson Dias e Quinho.

UNIDOS DA TIJUCA

Quarta escola a se apresentar, a Unidos da Tijuca discorreu sobre arquitetura, tendo como mote a cidade do Rio de Janeiro, que em 2019 recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) o título de primeira capital mundial da arquitetura e neste ano vai sediar o Congresso Mundial de Arquitetos. O desfile marcou o retorno do carnavalesco Paulo Barros à escola onde ele se tornou famoso - foi campeão em 2010, 2012 e 2014, e desde 2015 trabalhou em outras agremiações.

Não faltaram alas coreografadas nem carros alegóricos teatralizados, onde a ação é produzida por um grande conjunto de pessoas. Essas são duas das principais características de Barros.

Na Unidos da Tijuca, um Cristo Redentor articulado "abraçava" o público. (Thiago Ribeiro/Agif/Folhapress)

Enquanto o samba, que tem entre os compositores Dudu Nobre e Jorge Aragão, focou na arquitetura do cotidiano do Morro do Borel, favela berço da escola, o desfile exibiu alas e carros monumentais, que discorriam sobre a história da arquitetura, incluindo as pirâmides do Egito e o coliseu romano. O Cristo Redentor foi retratado duas vezes - na primeira, em construção, ele girava.

MOCIDADE

A Mocidade prestou homenagem à cantora Elza Soares. Criada na Vila Vintém, favela da zona oeste do Rio que é o berço da escola de samba, a artista de 89 anos desfilou em um trono, no último carro alegórico, e foi aclamada pelo público.

Elza Soares foi homenageada pela Mocidade. (Cristiane Mota /Fotoarena/Folhapress)

Com um dos sambas mais aclamados do ano, fácil de cantar e carregado de drama - como a vida de Elza - na interpretação de Wander Pires, a escola levantou a plateia pela força do enredo. Emocionada, a cantora Sandra de Sá, uma das autoras da música, era das mais empolgadas. Mas o desfile não foi tão bom quanto a trilha sonora.

BEIJA-FLOR

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A Beija-Flor encerrou a segunda noite de desfiles no Rio de Janeiro discorrendo sobre os trajetos percorridos pela humanidade - para conquistar territórios ou encontrar a terra prometida, por exemplo - e as ruas famosas do mundo, como Abbey Road, em Londres, e El Caminito, em Buenos Aires. Mas a escola precisou correr e deve perder pontos em quesitos como evolução.

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