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Pandemia

Exército reserva verba da vacina para remédio sem eficácia e hospital militar

Dinheiro garantido para as despesas faz parte da verba destravada por MP (medida provisória) editada em dezembro, em caráter emergencial, para compra de vacinas
Agência FolhaPress

Publicado em 

02 mai 2021 às 12:11

Publicado em 02 de Maio de 2021 às 12:11

Remédio, cloroquina
Azitromicina e cloroquina integram a lista de drogas sem eficácia para Covid-19 com recomendação de uso, pelo Ministério da Saúde, no combate à doença Crédito: Pixabay
O Exército reservou recursos da vacinação contra a Covid-19 para compra de material a hospitais militares usados por integrantes da Força, para aquisição de azitromicina, ivermectina e cloroquina – remédios sem eficácia no combate ao novo coronavírus – e para gastos sigilosos.
O dinheiro garantido para as despesas faz parte da verba destravada por MP (medida provisória) editada em dezembro, em caráter emergencial, para compra de vacinas.
Segundo a justificativa da MP enviada ao Congresso, os recursos também podem ser usados em despesas com insumos, logística, comunicação e publicidade, desde que associadas à vacinação.
A MP assinada pelo presidente Jair Bolsonaro liberou R$ 20 bilhões ao Ministério da Saúde. A pasta gastou R$ 3,56 bilhões com a compra direta de vacinas do Instituto Butantan, Pfizer e Janssen.
Em janeiro, os Ministérios da Saúde e da Defesa firmaram uma parceria – chamada TED (termo de execução descentralizada) – para que as Forças Armadas recebam recursos da saúde e auxiliem no programa nacional de imunização contra a Covid-19. Os repasses contemplados somam R$ 95 milhões.
Segundo o Ministério da Saúde, esse dinheiro é proveniente da MP voltada à vacinação. Até agora, conforme a pasta, foram liberados R$ 6,5 milhões para "despesa do pessoal envolvido diretamente no apoio à campanha de vacinação da população brasileira".

DADOS DO PORTAL DA TRANSPARÊNCIA

Dados disponíveis no Portal da Transparência, alimentados pelo governo federal até o último dia 22, mostram que os militares reservaram um valor maior, com a emissão de notas de empenho: R$ 16,9 milhões. O empenho é uma autorização de gastos, uma reserva no Orçamento, que antecede os pagamentos.
Em 22 de fevereiro, o Centro de Inteligência do Exército garantiu R$ 150 mil para gastos sigilosos. Em nota, o Exército afirmou ter feito atividades de inteligência de reconhecimento de itinerários e levantamento de áreas de risco ao material e ao pessoal empregado na vacinação. Também houve levantamento de áreas para postos de vacinação e hospitais de campanha, segundo a Força.
Outras reservas de recursos se destinam a insumos para dois hospitais militares do Exército, cujos leitos são voltados a militares da ativa e da reserva e a seus dependentes.
Um deles é o Hospital de Guarnição de Florianópolis. Segundo nota de empenho emitida em 1º de abril, foram assegurados R$ 9.999,50 para a compra de avental hospitalar e para aquisição de clorexidina.
Planilhas que passaram a ser publicadas pelo Exército após determinação do TCU (Tribunal de Contas da União) mostram que o hospital tem 15 leitos de enfermaria, sendo 10 para pacientes com Covid-19. A ocupação dos leitos, na quinta (29), era de 13%, segundo a planilha. O TCU investiga a reserva das unidades aos militares no momento mais crítico da pandemia.
Recursos destravados para a vacinação também foram reservados para a compra de material ao Hospital Geral de Belém. A base de administração e apoio do comando aparece como gestora de gastos para a compra de azitromicina, cloroquina, vitamina B, colagenase, loratadina, escopolamina, betametasona, bromoprida, algodão, gaze e cateter. Os empenhos somam R$ 5.200 e, segundo as notas emitidas, parte desse material se destina ao Hospital de Belém.
Azitromicina e cloroquina integram a lista de drogas sem eficácia para Covid-19 com recomendação de uso, pelo Ministério da Saúde, no combate à doença. O comando planejou comprar, com o dinheiro destravado pela MP, pequenas quantidades de cloroquina (30 comprimidos) e de azitromicina (100 comprimidos).
A ocupação da UTI do Hospital Geral de Belém, na quinta-feira (29), era de 33% e dos leitos de enfermaria, de 43%.
No 17º Batalhão de Fronteira, que fica em Corumbá (MS), cidade vizinha à Bolívia, a compra planejada de azitromicina foi maior: 1.002 comprimidos. A mesma nota de empenho prevê a aquisição de 300 comprimidos de ivermectina, outro medicamento sem eficácia para Covid-19. Ao todo, o gasto previsto é de R$ 4.200.

RESPOSTA DO EXÉRCITO

Questionado sobre empenhos voltados a insumos para hospitais militares e a drogas sem eficácia, o Exército não respondeu.
"É de conhecimento público que o Exército brasileiro tem apoiado a vacinação contra a Covid-19 em todos os rincões do país. Além de atuar diretamente na linha de frente da imunização, a Força tem realizado outras atividades de apoio à prevenção e ao combate à Covid-19", disse o Exército.
Os militares transportam equipes e vacinas a locais de difícil acesso e fazem desinfecção de áreas públicas, segundo a Força. Nas diferentes atividades, foram percorridos 3,6 milhões de quilômetros e usadas 1.100 horas de voo, afirmou.
O dinheiro serviu para aquisição de equipamento de proteção individual, insumos para desinfecção, alimentos, combustível e lubrificantes para aviões e carros, conforme a nota enviada.
Os grupos indígenas em localidades de difícil acesso são os principais atendidos com o suporte à vacinação, segundo o Ministério da Defesa. Além disso, secretarias municipais recebem apoio logístico.
Na Aeronáutica, os gastos previstos com manutenção de aeronaves e compra de querosene, a partir da MP da vacina, somam R$ 3,5 milhões.
"Os recursos foram investidos em despesas como aquisição de querosene e manutenção de aeronaves", disse a Aeronáutica, em nota. "A Força participa ainda de ações integradas, disponibilizando profissionais e unidades para campanhas de vacinação."

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