Publicado em 28 de maio de 2021 às 18:19
Uma carta da empresa White Martins e uma nota assinada pelo ex-secretário executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, contradizem declarações dadas pelo ex-ministro Eduardo Pazuello à CPI da Covid, na semana passada. Obtida pelo Estadão, a carta enviada para a comissão parlamentar de inquérito mostra que a multinacional alertou o governo do Amazonas sobre a necessidade de apoio e "esforços adicionais" para suprir a necessidade de oxigênio diante do aumento exponencial de casos de Covid-19 no Estado. >
Avisada, a Secretaria entrou em contato com Pazuello. Em entrevista transmitida pelas redes sociais, na tarde de 18 de janeiro, o então ministro da Saúde admitiu ter ficado "surpreso" com o colapso no sistema de saúde do Amazonas. Em Manaus, pessoas morreram asfixiadas por falta de oxigênio hospitalar.>
"No dia 8 de janeiro, nós tivemos a compreensão, a partir de uma carta da White Martins, de que poderia haver falta de oxigênio se não houvesse ações para que a gente mitigasse esse problema. Mas aquela foi uma surpresa tanto para o governo do Estado quanto para nós (Ministério da Saúde)", afirmou Pazuello na entrevista. A carta da multinacional tem a data de 7 de janeiro.>
O primeiro avião da Força Aérea Brasileira (FAB) com carregamento de oxigênio para Manaus - uma das capitais que mais sofreram com a pandemia de coronavírus - chegou apenas no dia 14 de janeiro. Em depoimento à CPI, na semana passada, o ex-ministro responsabilizou a Secretaria de Saúde do Amazonas pela gravidade da crise de oxigênio no Estado.>
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O general disse que a secretaria tinha informações sobre um possível desabastecimento, mas não repassou os dados para o ministério. "Se a Secretaria de Saúde tivesse acompanhado de perto, teria descoberto que estaria consumindo a reserva estratégica. Vejo aí duas responsabilidades muito claras. Uma começa na empresa (White Martins) e a outra, na Secretaria de Saúde. De nossa parte, fomos muito proativos a partir do momento em que tomamos conhecimento", declarou Pazuello aos senadores.>
Na carta do dia 7 de janeiro, porém, a White Martins informou a Secretaria de Saúde do Amazonas que, com o agravamento da crise, eram necessários "novos esforços adicionais" para superar o problema.>
"Vale registrar que a White Martins vem oferecendo o produto em questão em quantidades muito superiores às suas obrigações previstas em contrato, estando rigorosamente em dia com suas responsabilidades contratuais", diz um trecho do comunicado enviado pela multinacional. "Contudo, o imprevisto aumento da demanda ocorrido nos últimos dias agravou consideravelmente a situação de forma abrupta, superando em muito o volume contratado pela Secretaria junto à White Martins, fazendo com que sejam necessários novos esforços adicionais para que a totalidade das necessidades sejam cumpridas".>
Naquele mesmo 7 de janeiro, à noite, Pazuello foi avisado sobre o iminente colapso no abastecimento de oxigênio em uma conversa mantida por telefone com o secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Campêlo. A informação consta de nota técnica assinada pelo ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Élcio Franco e enviada à Câmara como resposta a um requerimento apresentado pelo deputado José Ricardo (PT-AM), como mostrou o Estadão. >
"Esclareço que, na noite de 7 de janeiro de 2021, este ministério tomou ciência de problemas relacionados ao abastecimento de oxigênio da rede de saúde do Amazonas. Tratou-se de uma conversa informal entre o secretário de Saúde do Estado do Amazonas e o ministro da Saúde ( ), por telefone, apenas e tão somente para solicitar apoio no transporte de 350 cilindros de oxigênio de Belém para Manaus", destacou Franco na nota técnica.>
Depois que Pazuello apareceu, neste domingo (23) em ato político ao lado do presidente Jair Bolsonaro, no Rio, a cúpula da CPI quer convocá-lo para novo depoimento. O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), disse ao Estadão que a ida de Pazuello a uma manifestação dessa natureza, sem máscara e incentivando aglomerações, é um "escárnio".>
Se o requerimento para mais uma convocação de Pazuello for aprovado, senadores vão questioná-lo sobre inverdades e falsas alegações proferidas por ele no depoimento anterior. Na lista produzida por Renan, por exemplo, há "15 mentiras" ditas pelo ex-ministro da Saúde à CPI, entre as quais a que se refere ao colapso de oxigênio no Amazonas.>
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