Publicado em 10 de abril de 2024 às 16:51
A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (10) a manutenção da prisão do deputado Chiquinho Brazão (sem partido-RJ), preso sob suspeita de ser um dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), em 2018. A sessão durou cerca de cinco horas.>
O tema será analisado ainda nesta quarta no plenário da Casa. A prisão ocorrida no exercício do mandato precisa ser referendada pela Casa a que o parlamentar pertence — Câmara ou Senado.>
Foram 39 votos favoráveis, 25 contrários e 1 abstenção. O deputado federal Darci de Matos (PSD-SC), relator na CCJ do pedido, já havia apresentado parecer favorável à manutenção da prisão do parlamentar.>
Orientaram contra a manutenção da prisão os partidos União Brasil e PL. Republicanos, Podemos e PP liberaram as suas bancadas.>
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Na CCJ nesta quarta, o relator do pedido afirmou que "juridicamente não há o que discutir" e que o julgamento no colegiado "é jurídico, mas também é político, porque somos uma Casa política". Segundo ele, pelo que consta no inquérito, Brazão "cometeu crime continuado, obstruindo a justiça o tempo todo".>
"A Polícia Federal indica expressamente que até os dias atuais os investigados criaram obstáculos à investigação, isso é fato. Contra fatos, não há argumentos. Tenho certeza que a CCJ e o plenário hoje haverão de dar uma resposta a esse crime, que é um crime político, contra a mulher, contra a democracia, que teve repercussão nacional e internacional", disse Darci de Matos.>
A decisão da CCJ é uma vitória para a base do governo Lula (PT) e para o STF (Supremo Tribunal Federal). No entanto, o cenário para votação no plenário está indefinido.>
De um lado, integrantes do centrão e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmam que a decisão do ministro do Supremo Alexandre de Moraes de mandar prender o parlamentar violou a Constituição, que prevê que deputados só podem ser detidos em flagrante por crime inafiançável.>
De outro, membros a base governista disseram que libertar Brazão representa um sinal de impunidade e que a ordem de Moraes foi constitucional.>
A votação desta quarta ocorre 16 dias após a prisão de Brazão e em meio à críticas e questionamentos de deputados sobre a sua legalidade, além de um clima de revolta com o Moraes. Por um lado, a maioria da Casa deseja mandar um recado ao ministro por ver violações de prerrogativas de parlamentares em decisões recentes.>
Por outro, reconhecem que a brutalidade e a comoção social envolvidas na morte de Marielle dificultam a formação de uma maioria para libertar o acusado de ordenar a morte da vereadora. Isso porque a votação será aberta --quando há registro de como votou cada deputado, assim como a abstenção deles. São necessários 257 votos (dos 513) no plenário para manter a prisão.>
"Voto aberto é uma defesa da sociedade, porque assim sabemos como cada parlamentar está pensando e fazendo. O Brasil todo está acompanhando para dizer que não vamos tolerar nenhum tipo de corporativismo num caso tão grave", afirmou Rubens Pereira Junior (PT-MA), um dos vice-líderes do governo na Câmara, em sua fala na CCJ.>
No último dia 26, deputados do Novo, do Republicanos e do PP pediram vistas (tempo para análise) do processo no âmbito da CCJ e, por causa de recesso informal na Câmara devido ao prazo final da janela partidária, a matéria foi analisada somente nesta quarta.>
Agora, o tema será debatido no plenário da Casa. Como a Folha de S.Paulo mostrou, há uma indefinição de líderes das bancadas sobre o tema. Um dos principais nomes do centrão na Casa, Elmar Nascimento (União Brasil-BA), por exemplo, já anunciou que é a favor da soltura de Brazão. Nascimento é cotado para suceder Arthur Lira (PP-AL) na presidência da Câmara, em 2025.>
Líder da oposição na Casa, o deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) diz que a maioria dos parlamentares que integram a oposição, a minoria e o próprio PL está "inclinada a votar pela soltura".>
"Pelo simples fato de termos coerência na defesa da Constituição Federal. Não houve flagrante, em tese ele praticou um crime, ele deve ser investigado, deve ser punido, devemos cassá-lo, para que ele seja investigado e punido. Não podemos abrir precedente para quem quer que seja. Para que futuramente isso possa acontecer com outros deputados", afirmou.>
O deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO) afirmou que os parlamentares precisam dar exemplo à sociedade "dando um basta na impunidade". "Não podemos permitir que o poder político se associe à criminalidade", disse, ao afirmar que votaria pela manutenção da prisão.>
O deputado Pedro Campos (PSB-PE) citou um versículo da Bíblia para fazer um apelo aos colegas na CCJ. "Faço esse apelo dizendo que estão claras as evidências em relação à flagrância do delito, da obstrução de justiça. Eu queria que tivesse provas mais concretas, mas como vamos ter se o chefe da polícia estava em conluio de milicianos?", disse, defendendo a manutenção da prisão.>
O advogado de Brazão, Cleber Lopes, afirmou que a Constituição prevê apenas a prisão em flagrante e que não houve "nenhuma conduta do parlamentar em contemporaneidade com sua prisão". Ele afirmou que Moraes violou a Constituição ao determinar a prisão preventiva do deputado.>
"O que estamos discutindo é se o STF pode prender preventivamente um parlamentar. Se isso é justo ou não, parece-me que não é fundamento para a decisão da comissão. A decisão é se a Constituição vale ou não vale. O que está escrito na Constituição é que parlamentar só pode ser preso em flagrante delito", afirmou.>
Também nesta manhã, foi instaurado processo de cassação do parlamentar no âmbito do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Casa. O pedido foi apresentado pela bancada do PSOL no dia 27 de março.>
Os deputados Bruno Ganem (Podemos-SP), Ricardo Ayres (Republicanos-TO) e Gabriel Mota (Republicanos-RR) foram sorteados para relatar o procedimento. Na próxima semana, o presidente do colegiado anunciará qual dos parlamentares escolheu para relatar o processo.>
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