Muito tensa do início ao fim, a votação da reforma da Previdência estadual na Assembleia Legislativa, na noite desta segunda-feira (25), foi marcada por grandes conflitos entre deputados da base do governo Casagrande (PSB) e oposicionistas. O ápice da tensão foi uma cena que há muitos anos não se via na Assembleia: o deputado Capitão Assumção (PSL), o mais estridente da oposição, pediu à Mesa Diretora que expulsasse do plenário o chefe da Casa Civil, Davi Diniz, chamando-o de “31º deputado”.
Representante do governo Casagrande, Diniz se encarrega pessoalmente de conduzir as articulações políticas do Palácio Anchieta com os deputados estaduais. É dele a tarefa de negociar e articular com os deputados a aprovação dos projetos prioritários do Poder Executivo, como é o caso da reforma da Previdência para o funcionalismo estadual.
Desde o início do ano, sempre que está em pauta um desses projetos, Diniz mantém-se literalmente dentro do plenário - normalmente no canto direito, dentro de uma cabine reservada para técnicos da Assembleia (a Sala de Atas). É um ponto pouco visível para quem está fora do plenário, mas, apesar da discrição, o secretário está sempre lá, com o celular sempre em punho, disparando vários telefonemas e conversando ao pé do ouvido com parlamentares. Ele é o elo entre deputados e Casagrande.
Nesta segunda-feira, a atuação desenvolta de Diniz dentro do plenário incomodou particularmente Assumção, que, após subir à tribuna, disparou contra o secretário, dizendo que não continuaria a discursar enquanto ele não fosse retirado. Foi um momento constrangedor.
“Senhor presidente, eu gostaria de solicitar a Vossa Excelência para tirar desta Casa aqui dentro o ‘31º deputado’, porque ele não é deputado. O chefe da Casa Civil aqui dentro, atrapalhando a votação aqui dos deputados”, discursou Assumção, gesticulando muito e falando grosso, naquele estilo que costuma adotar quando vai à tribuna. “Eu não me pronuncio enquanto ele estiver aqui dentro”, completou. E cruzou os braços.
Atento, o líder do governo, Enivaldo dos Anjos, rebateu do outro microfone: “O chefe de segurança seu também está aqui dentro. Isso é indelicadeza de Vossa Excelência”.
“Não! Ele está fazendo política pessoal para o governador e não pode ficar aqui dentro. Eu não me pronuncio nem saio daqui enquanto ele estiver aqui dentro! Está ameaçando deputados!”, retrucou o deputado do PSL.
"Ele não está ameaçando ninguém, e Vossa Excelência não vai conseguir o que quer", devolveu o líder do governo.
Neste momento, Davi Diniz estava ao lado do deputado Marcelo Santos (PDT), aliado do governo e articulador de bastidores. Ficou o tempo todo parado, sem dizer uma palavra, apenas olhando fixamente para Assumção.
Quando o bate-boca explodiu, Erick Musso estava fora da Mesa. Voltou às pressas para seu lugar, na presidência, e, dirigindo-se a Assumção, pediu-lhe para reconsiderar, como um "pedido de amigo". Falou baixo, devagar, escolhendo bem as palavras, como quem tenta amansar uma fera. Funcionou.
Assumção pôs de volta no bolso o seu "cartão vermelho para Diniz". E o secretário continuou em plenário, conduzindo pessoalmente as articulações. Pouco depois, contra o voto de Assumção e de outros oito deputados, a PEC da reforma da Previdência foi aprovada em primeiro turno. Ainda não noite desta segunda-feira, pode ser aprovada em segundo turno.
PRECEDENTE
Na recente história política do Espírito Santo, há somente um precedente de episódio que se assemelhe ao que se testemunhou nesta segunda-feira em plenário.
Em dezembro de 2014, nos estertores do primeiro governo de Casagrande, com Hartung já eleito para a gestão 2015-2018, a Assembleia votou as contas do exercício financeiro de Casagrande em 2013. O então chefe da Casa Civil, Tyago Hoffmann (PSB), estava a articular a aprovação das contas de dentro do plenário.
Foi quando o então deputado Paulo Roberto Ferreira (MDB), opositor de Casagrande e aliado de Hartung, da tribuna, pediu ao então presidente da Assembleia, Theodorico Ferraço (DEM), que o secretário fosse retirado do plenário, pois não era deputado e estaria atrapalhando os trabalhos. Hoffmann, naquele dia, precisou realmente se retirar do plenário, em uma situação vexatória para o secretário.
Semanas depois, após a posse de Hartung, o próprio Paulo Roberto se tornaria o novo chefe da Casa Civil. Hoje, na atual administração de Casagrande, Hoffmann é secretário estadual de Governo.