Poucos pratos conseguem representar tão bem um povo quanto a moqueca representa o Espírito Santo. Mais do que uma receita, ela é cultura, memória, turismo, identidade e uma das maiores expressões da nossa relação com o mar.
A história da moqueca atravessa gerações e está profundamente ligada às tradições indígenas e à cultura pesqueira capixaba. Com o passar do tempo, ganhou características próprias e se transformou em um dos maiores símbolos da gastronomia do Espírito Santo.
A moqueca capixaba tem uma identidade muito particular. Diferentemente da moqueca baiana e de outras preparações, não leva azeite de dendê nem leite de coco. Valoriza o peixe fresco e os frutos do mar, preparados com os temperos tradicionais e, principalmente, na nossa tradicional panela de barro de Goiabeiras.
Mas há algo que nenhuma receita consegue reproduzir: a memória afetiva de quem cresceu com esse sabor. Minha relação com a moqueca vem desde a infância. Desde os primórdios do Restaurante São Pedro, na Praia do Suá, esse prato faz parte das minhas lembranças e da história gastronômica de Vitória.
E é bonito perceber como essa tradição permanece viva, com o São Pedro seguindo firme e forte e tantos outros restaurantes mantendo e renovando a tradição da boa mesa capixaba.
Mas falar da moqueca capixaba é também falar de um homem que ajudou a projetar o Espírito Santo para muito além das nossas fronteiras: Cacau Monjardim. Publicitário, jornalista, homem ligado ao turismo e um apaixonado pelo Espírito Santo, Cacau foi uma dessas figuras que compreenderam que um povo também se apresenta ao mundo por aquilo que sabe fazer, preservar e contar.
Ele ajudou a transformar a moqueca em uma verdadeira bandeira capixaba. Sua personalidade, seu humor e sua capacidade de comunicação fizeram da gastronomia também uma ferramenta de identidade e promoção do nosso Estado.
E foi justamente por essa ligação entre Cacau e a nossa cultura que surgiu a ideia de transformar o dia do seu nascimento, 30 de setembro, em uma data dedicada à moqueca capixaba. A proposta foi construída em diálogo com o próprio Cacau e posteriormente levada ao então vereador Zezito Maio, morador raiz da Praia do Suá, região historicamente ligada à pesca e à colônia de pescadores de Vitória.
Zezito acolheu a ideia e participou da construção que resultou na lei municipal que instituiu oficialmente o Dia da Moqueca. A iniciativa também chegou ao âmbito estadual por meio da então deputada Luzia Toledo, que acolheu a proposta e contribuiu para que essa celebração ganhasse dimensão em todo o Espírito Santo. A todos eles — Cacau Monjardim, Zezito Maio e Luzia Toledo — fica o meu reconhecimento e a minha gratidão.
E a história ganhou ainda outro capítulo: depois da criação da lei municipal, nos reunimos novamente e criamos a Confraria da Moqueca Capixaba, com o propósito de valorizar, preservar e divulgar essa tradição que é tão nossa. Hoje, a moqueca já é oficialmente celebrada na Capital do Espírito Santo, Vitória. E esse movimento de valorização não para nela.
Há novas iniciativas em diferentes municípios capixabas para fortalecer a moqueca como patrimônio gastronômico, cultural e turístico. Em Guarapari, por exemplo, já existe legislação municipal que instituiu a Semana da Gastronomia com o Festival da Moqueca, Frutos do Mar e da Culinária Local e Regional. Também há, no âmbito estadual, proposta para criar a Rota da Moqueca Capixaba, incluindo municípios como Linhares, Vitória, Guarapari e outros destinos do litoral capixaba.
É bonito perceber que uma tradição que nasceu da relação do capixaba com o mar continua ganhando novos espaços, novas iniciativas e novas formas de reconhecimento. E existe ainda uma dimensão que considero especialmente importante: a saúde.
Como administrador hospitalar e executivo de saúde, sempre defendi que alimentação também faz parte do cuidado. Ao longo da minha atuação, incentivei a valorização da culinária capixaba também na alimentação hospitalar, respeitando, naturalmente, as necessidades nutricionais e as restrições de cada paciente. Porque comida também é afeto. É memória. É pertencimento.
Para um capixaba hospitalizado, encontrar em uma refeição um sabor que remeta à sua terra, à sua família e às suas lembranças pode ser uma forma de acolhimento.
Por isso, neste 30 de setembro, não celebramos apenas uma receita. Celebramos nossos pescadores, nossas paneleiras, nossos cozinheiros, nossos restaurantes, nossas famílias e todos aqueles que, geração após geração, mantêm viva essa tradição.
E celebramos especialmente Cacau Monjardim, que ajudou a transformar a moqueca em uma das maiores marcas culturais do Espírito Santo. Tenho alegria e gratidão por ter participado dessa história, mas a moqueca não pertence a uma pessoa. A moqueca pertence ao Espírito Santo. E talvez nenhuma frase tenha conseguido traduzir isso tão bem quanto aquela que Cacau Monjardim deixou para a história: “MOQUECA É CAPIXABA. O RESTO É PEIXADA.”