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Adriana Müller

Artigo de Opinião

Comportamento

Silêncio no Uber:  Estamos perdendo a capacidade de conversar?

Em minha experiência com esses serviços de transporte, percebo que existe um protocolo a ser seguido, com algumas perguntas padrões. Qual a dificuldade em incluir mais algumas sobre a necessidade de silêncio?
Adriana Müller

Públicado em 

10 out 2019 às 16:49
Aplicativo da Uber faz parte da rotina de muita gente Crédito: Pixabay
A Uber informou que os clientes terão acesso a mais uma opção: decidir a temperatura e se querem conversar com o motorista. Uma adequação às demandas que, por isso, não requer nenhuma análise mais profunda. Meu convite à reflexão parte de outro ponto: como nos mantermos humanos em um mundo tecnológico?
É inegável a presença da tecnologia em nossas vidas, de forma cada vez mais compacta e integrada à nossa rotina, transformando, progressivamente, nossa forma de ser e de perceber o mundo. Alguns conceitos já foram modificados: a memória saiu do cérebro e foi para a nuvem, a noção de distância foi reduzida a um clique, a comunicação passou a ser muito mais virtual do que presencial, o consumo deixou de ser padronizado e é, cada vez mais, personalizado.
A tecnologia chegou e, apesar de transformar nossa realidade, não nos roubou a humanidade. Continuamos tendo a capacidade tipicamente humana de criar (ir além do óbvio), sentir (emocionar-se) e ter sensibilidade moral (perceber questões morais nas entrelinhas). Por enquanto, somente os humanos conseguem agir com equidade, mantendo a justiça diante das diferenças, se encantar com um encontro de olhares, transformar (como Menino Maluquinho) panelas em chapéus. Só o mundo humano possui e entende “colo de mãe”.
"O cliente precisa entender que, ao aceitar utilizar um app de compartilhamento, ele está pegando carona no carro de uma pessoa. Não é nem o seu carro, nem o seu motorista. É um compartilhamento"
Adriana Müller - Psicóloga
O ser humano é essencialmente um ser social que, ao interagir, cresce, amadurece e desenvolve habilidades sociomorais. E fazemos isso por meio da linguagem. Então, quando no mundo do consumo personalizado, surge um aplicativo que sugere antecipar ‘conversa e temperatura’, cabe a pergunta: como foi que o ato de entrar em um carro e pedir que desligue o ar ou dizer que precisamos ficar em silêncio se tornou um dilema? Por que essa simples interação humana encontra tantas arestas a ponto de surgir uma solução digital para tal dilema? Será que estamos perdendo a capacidade de conversar?
Em minha experiência com estes serviços percebo que existe um protocolo a ser seguido, com algumas perguntas padrões. Qual a dificuldade em incluir mais algumas sobre temperatura ou conversa? Onde foi parar a educação das pessoas em perceber – e respeitar – o silêncio do outro?
Estamos em um momento de transição entre dois modelos sociais bem distintos: um que valoriza a posse (meu carro, minha casa, meu pet) e, outro, do compartilhamento, via apps. O ser humano tem uma capacidade de adaptação que precisa ser ativada: quando disponibilizo meu carro em uma plataforma de compartilhamento, cabe a mim entender que não é a temperatura que eu gosto, ou a conversa que eu quero, ou o estilo de pessoa que eu aceito porque esse é o meu carro. Se o consumo é personalizado, tenho que me adaptar ao cliente – ou deixar o meu carro na minha garagem. Assim também o cliente precisa entender que, ao aceitar utilizar um app de compartilhamento, ele está pegando carona no carro de uma pessoa. Não é nem o seu carro, nem o seu motorista. É um compartilhamento.
Um compartilhamento tanto de um bem (o carro) quanto de um item essencial à qualidade das interações humanas, o respeito. Em suma, o elemento que equaliza essa interação é algo que resiste à ação do tempo: a boa educação. Respeito, generosidade, gratidão, honestidade: isso nos faz humanos. E é exatamente isso o que não podemos perder sob o risco de nos robotizarmos. Que a boa educação nos guie, afinal não podemos nos iludir: a tecnologia trabalha onde o ser humano falha.
*A autora é psicóloga
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