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Mariana Piassaroli

Artigo de Opinião

É farmacêutica da Rede Mônica e especialista em manipulação.
Mariana Piassaroli

Regulamentação da cannabis em farmácias de manipulação: coerência ou contradição?

Discussão atinge diretamente a coerência regulatória, o acesso a tratamentos inovadores e os direitos de pacientes que dependem de novas terapias
Mariana Piassaroli
É farmacêutica da Rede Mônica e especialista em manipulação.

Publicado em 29 de Novembro de 2024 às 12:13

Publicado em 

29 nov 2024 às 12:13

A análise pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a possibilidade de farmácias de manipulação produzirem medicamentos à base de cannabis é um dos temas mais relevantes no cenário jurídico e de saúde do Brasil. Trata-se de uma discussão que vai além das simples questões legais e atinge diretamente a coerência regulatória, o acesso a tratamentos inovadores e os direitos de pacientes que dependem de novas terapias.

Atualmente, a Anvisa proíbe que farmácias de manipulação utilizem a cannabis em suas formulações, embora permita o uso de outras substâncias controladas. Esta restrição gera uma reflexão sobre o papel regulador e as possibilidades terapêuticas que poderiam ser ampliadas. Afinal, as farmácias de manipulação têm autorização para formular medicamentos personalizados, atendendo a demandas específicas que a indústria farmacêutica tradicional nem sempre consegue suprir.

Cannabis medicinal
Anvisa atualmente proíbe que farmácias de manipulação utilizem a cannabis em suas formulações Crédito: jcomp/Freepik

A farmácia de manipulação oferece uma importante alternativa no cuidado personalizado à saúde. Ela permite a combinação de moléculas específicas para criar formulações customizadas, muitas vezes únicas, para atender às necessidades dos pacientes. Este é um serviço que vai além da oferta da indústria farmacêutica tradicional, e a proibição de manipulação da cannabis limita essa capacidade de inovação.

A controvérsia surge a partir de um processo judicial em São Paulo, onde uma farmácia de manipulação decidiu recorrer à Justiça para garantir o direito de formular produtos à base de cannabis. O caso chegou ao STF e, agora, a decisão terá repercussões que poderão moldar o futuro da regulamentação no Brasil. A pergunta que se impõe é: por que a resistência em relação à cannabis continua tão forte, mesmo em um contexto onde substâncias potencialmente mais nocivas são regulamentadas com relativa facilidade?

Do ponto de vista técnico, não há justificativas que sustentem essa proibição. A inclusão da cannabis nas formulações manipuladas seria uma evolução natural, já que a manipulação lida com substâncias controladas de maneira altamente segura e eficaz. Incluir a cannabis nas possibilidades de tratamento traria mais opções terapêuticas, especialmente para pacientes que não encontram soluções adequadas nos medicamentos convencionais.

Além disso, os benefícios da cannabis para tratamentos médicos já foram reconhecidos globalmente. Em países como Canadá, Estados Unidos e partes da Europa, medicamentos à base de cannabis são amplamente utilizados para tratar condições como dores crônicas, epilepsia, ansiedade e esclerose múltipla. Não se trata de uma substância “alternativa”, mas de um recurso terapêutico respaldado por ciência e experiência clínica.

O que está em jogo, no fundo, é o direito de acesso a tratamentos mais personalizados e inovadores. O julgamento pelo STF pode definir se o Brasil vai se alinhar a uma tendência global de descriminalização e regulamentação da cannabis para uso medicinal ou se continuará preso a estigmas ultrapassados. Mais do que uma questão de justiça legal, a decisão envolve a promoção da saúde e o bem-estar de milhares de brasileiros que poderiam se beneficiar de terapias mais avançadas e acessíveis.

Permitir que farmácias de manipulação produzam medicamentos à base de cannabis seria uma resposta natural à evolução das práticas médicas e farmacêuticas. A atual proibição não faz sentido em um sistema que já permite a manipulação de substâncias muito mais perigosas. O julgamento do STF tem a oportunidade de corrigir essa incoerência e abrir as portas para um futuro onde os pacientes brasileiros possam contar com todas as opções terapêuticas possíveis.

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