Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Bianca Martins

Artigo de Opinião

É psicóloga, psicanalista, especialista em Psicanálise: Teoria e Clínica, mestre em Saúde Coletiva e doutoranda em Psicologia Institucional
Bianca Martins

Quando tudo é violência, nada é violência

Pais e mães, escutem seus filhos antes de nomear. Perguntem o que aconteceu e como se sentiram. Antes de acusar, procurem compreender
Bianca Martins
É psicóloga, psicanalista, especialista em Psicanálise: Teoria e Clínica, mestre em Saúde Coletiva e doutoranda em Psicologia Institucional

Publicado em 07 de Outubro de 2026 às 10:00

Publicado em 

07 out 2026 às 10:00

Uma criança chega da escola e anuncia: “Sofri bullying”. O que houve? "Estão rindo de mim, fazem brincadeiras de que não gosto". Outra diz que sofreu racismo porque puxaram seu cabelo. Um adolescente conta que foi xingado pelos colegas no corredor. E os pais ficam em dúvida: trata-se de violência ou não?

Violência é o uso da força, física ou simbólica, para submeter, ferir ou apagar subjetivamente o outro. É a recusa de reconhecê-lo como humano.

Nomear é uma das tarefas mais delicadas de quem educa. A psicanálise ensina que a palavra estrutura nossas subjetividades, nossos modos de ser. É pela linguagem que nos inscrevemos no mundo e damos contornos aos afetos. Por isso, nomear equivocadamente confunde. Quando tudo é violência, nada é violência.

Veja Também 

Câncer de mama

Câncer de mama: esperança não é promessa de cura

Imagem de destaque

Pix, Drex e o novo paradigma da rastreabilidade financeira no Direito Penal

A Constituição Federal em vigor foi promulgada em 1988 (Imagem: Appreciate | Shutterstock)

A Constituição e a promessa de igualdade que o Brasil ainda precisa cumprir

O bullying, por exemplo, não é uma briga isolada nem uma brincadeira entre iguais. É uma intimidação sistemática, repetida, intencional e marcada pela desigualdade de poder. Machuca, fragiliza quem não consegue se defender e pode levar ao apagamento subjetivo.

O racismo vai além do xingamento, embora a ofensa racial seja crime. É um sistema que estabelece que algumas vidas valem menos. Quando uma criança relata ter sofrido racismo, é preciso acreditar nela, acolher sua percepção e investigar o ocorrido para garantir sua proteção.

Também é necessário distinguir quem age com intenção discriminatória de quem reproduz uma fala sem compreender seu significado. A criança precisa de escuta, orientação e letramento racial. Isso não significa deixar passar: quem aprende também deve responder pelo que faz. As consequências precisam ser claras, educativas e capazes de ampliar a compreensão, não de rotular ou humilhar.

A xenofobia, palavra formada pelos termos gregos xenos (estrangeiro) e phobos (medo), expressa a rejeição ao estrangeiro. Curiosamente, a Grécia que nos legou essa palavra também nos deu a Odisseia. Ulisses vagou por anos em terras desconhecidas, dependendo da hospitalidade alheia, então considerada sagrada. Reconhecer a humanidade do outro é também afirmar a nossa. Só sei quem sou quando me vejo nos olhos de alguém diferente de mim. A humanidade nasce do encontro, não da solidão.

A discriminação de gênero aparece quando meninas e meninos são tratados de forma desigual quanto ao que podem vestir, sonhar e ser. Está na proibição de que meninos expressem emoções e meninas manifestem opiniões. Discriminar é fechar portas e diminuir alguém por quem essa pessoa é.

Já a misoginia é o desprezo pelo feminino, o ódio às mulheres e a ideia de que valem menos. Não se confunde com discordar de uma mulher ou terminar um relacionamento. Manifesta-se na violência disfarçada de piada e no controle apresentado como cuidado.

A homofobia atinge quem ama alguém do mesmo sexo. Não se resume a uma opinião contrária: manifesta-se na agressão física ou simbólica, no xingamento recorrente, na piada que humilha, na exclusão do grupo e até na expulsão de casa. É negar ao outro a mesma humanidade que reconhecemos em nós.

A transfobia, por sua vez, é a violência contra pessoas cuja identidade de gênero não corresponde ao gênero que lhes foi atribuído ao nascer. Ter dúvidas ou não compreender não é o mesmo que discriminar. A violência está em tratar alguém como menos humano, recusar seu nome, negar-lhe o acesso ao banheiro adequado ou desrespeitar seu corpo. Desde 2019, o STF equipara a homofobia e a transfobia ao crime de racismo, reconhecendo nessas condutas a negação da dignidade humana.

Pais e mães, escutem seus filhos antes de nomear. Perguntem o que aconteceu e como se sentiram. Antes de acusar, procurem compreender. Depois, ajam: diante do bullying, procurem a escola; diante do racismo, não aceitem que a situação seja minimizada com um “foi sem querer”; diante da homofobia, protejam seus filhos.

Bullying
Bullying Pexels

Nem toda situação desagradável, porém, se enquadra nessas categorias. A convivência é complexa, e nem sempre as atitudes alheias nos agradam. Isso, por si só, não configura violência. Educar também é ensinar a nomear corretamente o mundo, uma palavra de cada vez. E, quando o próprio filho pratica a violência, é preciso educá-lo para a tolerância, a empatia e a responsabilidade.

Essa tarefa exige parceria com a escola, onde muitas dessas situações acontecem. Cabe à instituição acolher os relatos, acompanhar as relações, promover a reflexão sobre as condutas e suas consequências. Punir aquilo que não foi ensinado é perpetuar a ignorância. À escola cabe responsabilizar e educar, não simplesmente cancelar quem agrediu.

Toda criança e todo adolescente deseja pertencer a um grupo. Cabe aos adultos mediar essas relações, orientar sem desconsiderar suas opiniões e oferecer espaço para que expressem sentimentos e compreendam que palavras e atitudes têm consequências, sem serem reduzidos a elas.

Educar para as diferenças é ensinar a habitar a humanidade. Ninguém nasce pronto para conviver com o diferente: aprendemos a reconhecer no outro algo de nós. Cada gesto de escuta ajuda a reconstruir nossa humanidade.

A diferença não ameaça nossa identidade; ela nos ensina quem somos. Respeitar não é apenas tolerar o outro de longe. Sem ele, nossa história fica incompleta. Como pais e educadores, devemos ensinar crianças e adolescentes não a serem iguais a nós, mas a conviverem com as diferenças, reconhecendo nos outros a mesma dignidade que exigem para si.

É assim que nos integramos à humanidade: não apesar das diferenças, mas por meio delas.
 

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados