“Doutora, vai dar tudo certo?”
É uma das perguntas que mais escuto no consultório. E talvez uma das mais difíceis de responder.
Não porque a medicina não tenha respostas. Pelo contrário. A oncologia avançou, os tratamentos se tornaram mais precisos e as possibilidades terapêuticas são hoje muito maiores do que eram algumas décadas atrás. Mas porque, diante de um diagnóstico de câncer, ainda existem perguntas para as quais nenhum médico pode oferecer uma garantia.
É justamente nesse espaço entre o que sabemos e o que ainda não podemos prever que a esperança precisa encontrar seu lugar.
Esperança não é promessa de cura. Essa diferença pode parecer pequena, mas é fundamental, pois assegurar um resultado que a medicina não pode garantir pode transformar uma palavra de conforto em uma expectativa difícil de sustentar.
Cada câncer tem características próprias, cada paciente responde de uma maneira às terapias aplicadas. O tratamento é planejado a partir de evidências, das características da doença e das condições de cada pessoa, mas não existe uma fórmula capaz de antecipar exatamente o que acontecerá com todos.
Isso não significa que devamos falar de câncer sem esperança, muito pelo contrário. Significa que precisamos construir uma esperança possível, baseada na realidade e não em certezas inventadas.
Para algumas pacientes, a esperança estará na cura. Para outras, estará em uma boa resposta ao tratamento, no controle da doença, na redução dos sintomas ou na possibilidade de viver mais e melhor. Hoje, mesmo sem uma cura definitiva, muitos pacientes oncológicos convivem com o câncer, assim como convivem com outra doença crônica que não tem cura, mas tem controle.
Também precisamos abandonar a ideia de que ter esperança significa estar otimista o tempo inteiro. Quem recebe um diagnóstico de câncer pode ter medo, pode chorar, sentir raiva ou não querer conversar. Pode ter dias em que acredita no tratamento e outros em que simplesmente não consegue pensar no futuro. Nada disso significa falta de coragem ou de fé, mas apenas que estamos diante de uma experiência que mexe profundamente com a vida de uma pessoa.
Como médica, acredito que parte do nosso trabalho está justamente em saber conversar sobre isso. Nem sempre dizer “vai dar tudo certo” é a melhor forma de acolher alguém. Às vezes, o que aquela pessoa precisa ouvir é: “Vamos entender o que está acontecendo. Vamos falar sobre as possibilidades e decidir, juntos, os próximos passos”.
Neste Outubro Rosa, quando falamos tanto sobre prevenção, diagnóstico precoce e tratamento, acredito que também precisamos falar sobre a forma como acolhemos quem já recebeu o diagnóstico. Porque, depois que o câncer entra na vida de uma mulher, ela não se transforma apenas em uma paciente. Continua sendo mãe, filha, companheira, profissional, amiga. Continua tendo planos, medos, desejos e uma vida que não pode ser resumida ao nome de uma doença.
A medicina tem o compromisso de oferecer o melhor tratamento possível, com conhecimento científico, atualização e individualização. E tem também o compromisso de ser honesta.
A esperança que considero mais verdadeira é aquela que não precisa de promessas. É a que se apoia na ciência, nas possibilidades reais de cada tratamento e na disposição de seguir tomando decisões, uma etapa de cada vez.
Porque esperar pelo melhor não significa saber como a história vai terminar, mas acreditar que, enquanto houver caminhos a percorrer, haverá escolhas e possibilidades.