1984 é um livro. 1964, uma ferida. No famoso romance de George Orwell, o poder fabrica inimigos, manipula a linguagem e organiza o ódio. Na história brasileira, uma ditadura suprimiu direitos sob a promessa de salvar o país. Distopia e memória revelam como o autoritarismo prepara sua chegada, fazendo a sociedade desejar aquilo que deveria temer.
Em 1984, os “dois minutos de ódio”, cerimonial diário obrigatório na sociedade distópica, transformam a hostilidade em ritual. O inimigo oferece um destino à frustração e uma justificativa à obediência. Hoje, o cenário político ilumina uma dinâmica familiar: a indignação, o adversário convertido em ameaça e a crueldade celebrada como coragem.
1964 nos faz lembrar que o medo pode conquistar apoio social para a supressão da liberdade. A ditadura não se sustentou apenas pelas armas, mas contou com adesões civis e com a tolerância de quem julgava que a repressão atingiria apenas os outros. A promessa de uma intervenção passageira desembocou em duas décadas de censura, perseguição e violência estatal.
O primeiro turno das eleições de 2026, sobretudo com o avanço da extrema-direita no Congresso, deve ser lido sob essas advertências, sem confundir momentos históricos distintos. Uma guinada conservadora não equivale necessariamente a uma ditadura, mas a legitimidade eleitoral tampouco torna democrático todo projeto que conquista apoio popular. O risco aparece quando vencer passa a significar o direito de eliminar limites impostos pela Constituição.
A radicalização social facilita essa passagem, pois se o outro não merece escuta, respeito ou convivência, por que mereceria garantias? A pergunta raramente aparece, mas orienta a justificação dos abusos. É nesse ambiente que os freios e contrapesos constitucionais costumam ser corroídos.
Um Congresso que protege aliados em vez de fiscalizá-los e ataques destinados a submeter o Judiciário preservam a fachada institucional enquanto esvaziam seus limites. Isso não absolve arbitrariedades judiciais, visto que nenhum Poder pode transformar a defesa da democracia em salvo-conduto para, contraditoriamente, destruí-la.
Ao mesmo tempo, é importante lembrar que o Judiciário deve ser contramajoritário, ou seja, ele não está posto para atender às demandas da maioria. E isso nem sempre é o melhor caminho. Para os adeptos da mescla entre política e religião, talvez o melhor exemplo seja a condenação injusta de Jesus e seu apoio incondicional pela maioria do povo.
Enquanto Orwell apresentou uma sociedade obrigada a aceitar a mentira, a experiência brasileira expôs o preço de aceitar a violência como solução. Nosso desafio é impedir que o voto legitime essa combinação, afinal, a democracia começa a morrer quando a identidade do inimigo importa mais do que a injustiça que ele sofre.