Uma rápida pesquisa no site da A Gazeta com os termos “atropelamento” combinados com “Avenida Dante Michelini” revela algo que precisa nos fazer refletir. Em poucos meses, três ocorrências graves foram registradas na via.
Em agosto do ano passado, duas pessoas foram atropeladas por um ônibus do sistema Transcol. Já em janeiro, uma turista de Minas Gerais perdeu a vida ao atravessar a avenida. Mais recentemente, neste fim de semana, um publicitário também morreu após ser atingido por um táxi. Casos distintos, mas unidos por um mesmo cenário: uma das principais avenidas de Vitória.
A Dante Michelini é um cartão-postal da Capital capixaba. Com pelo menos três pistas em cada sentido e alto fluxo de veículos e pedestres, conecta bairros, áreas de lazer e pontos turísticos. À primeira vista, uma leitura fria dos números poderia levar à falsa conclusão de que se trata apenas de fatalidades. Mas o trânsito raramente se resume ao acaso.
O sistema viário é construído por pessoas. Condutores, ciclistas, pedestres e passageiros fazem parte da mesma engrenagem. Não é por acaso que existem sinalizações horizontais e verticais, semáforos, redutores de velocidade e faixas de travessia. Cada elemento faz parte de uma lógica de engenharia e de direito que busca organizar o deslocamento e reduzir riscos.
Ainda assim, o ir e vir nas cidades não é uma ciência exata. Lidamos com comportamentos humanos, distrações, pressa, hábitos automáticos e decisões tomadas em frações de segundo. Nesse ambiente complexo, basta um pequeno descompasso para que o resultado seja trágico.
O luto provocado pelas perdas recentes é imenso. As informações iniciais das autoridades indicam que os atropelamentos, como o da turista e o do publicitário, ocorreram fora da faixa de pedestres e que os condutores, em princípio, trafegavam em condições regulares. Mesmo assim, isso não encerra a discussão. Ao contrário, abre espaço para questionamentos necessários.
Em uma região tão frequentada, será que o número de travessias é suficiente? A iluminação da via é adequada? Seria necessário ampliar o controle de velocidade com radares ou outros dispositivos? As campanhas educativas alcançam pedestres e motoristas de forma eficaz? Todos que circulam pela avenida têm real dimensão dos riscos envolvidos?
Essas perguntas não dizem respeito apenas à Avenida Dante Michelini. Elas poderiam ser feitas sobre muitas outras vias movimentadas da Grande Vitória. O trânsito metropolitano exige reflexão permanente, planejamento e atualização constante das políticas públicas.
A Constituição estabelece a educação como um dever coletivo, e isso também se aplica ao trânsito. Formar cidadãos conscientes é tão importante quanto construir infraestrutura adequada. Multas, quando aplicadas diante de infrações, cumprem papel educativo: sinalizam limites e desencorajam condutas perigosas.
Mas a verdade é simples e dolorosa. Toda a sociedade, em um gesto de humanidade, trocaria cada centavo arrecadado com penalidades pela preservação das vidas que já foram perdidas. Nenhuma estatística compensa uma ausência. É uma mãe que perde um filho ou uma filha. Dói demais.
Por isso, falar da avenida Dante Michelini não é apenas comentar acidentes recentes. É reconhecer que o trânsito é responsabilidade de todos: preservar vidas deve ser sempre o nosso principal destino.
Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.
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