Avesso ao bolsonarismo e ao lulismo, o coro dos descontentes persiste a três meses das eleições, e a mesma pergunta se repete a cada pleito: por onde anda a terceira via? Explico por que essas candidaturas são improváveis de vencer a eleição presidencial no Brasil: o resultado deriva menos do desempenho de palanque dos candidatos e mais da estrutura econômica e social desigual do país.
A pesquisa AtlasIntel de 1º de julho aponta Lula à frente de Flávio Bolsonaro num provável segundo turno, cenário confirmado por vários institutos. Entre o improvável e o impossível, uma terceira via viável dependeria do colapso de uma das duas candidaturas que hoje polarizam a disputa.
Prensado entre os dois polos, o eleitor da terceira via quer paz política, serviços públicos eficientes e apoio ao empreendedorismo. Já os palanques das terceiras alternativas (Caiado, Zema e Renan Santos) disputam o espólio do bolsonarismo: anistia ao 8 de Janeiro, perdão a Bolsonaro, militarização das escolas, segurança linha-dura, corte de políticas sociais, enfraquecimento dos direitos trabalhistas e a escala 6×1 preservada.
A renda persiste como fator estruturante. Às vésperas do primeiro turno de 2022 (segundo o Datafolha), a baixa renda ancorava Lula (54% a 26% até dois salários, metade do eleitorado) e a renda alta apoiava Bolsonaro (49% a 34% entre cinco e dez); a faixa intermediária, um terço do país, decidiu a eleição. Em julho de 2026, pela Quaest, a âncora de Lula resiste (49% a 23% sobre Flávio entre os mais pobres) e ele lidera na renda alta (36% a 30%) porque o centro esvaziou; a faixa do meio segue dividida.
Em resumo: famílias de menor renda pressionam por políticas redistributivas (educação, saúde e emprego, sobretudo); as de alta renda ou as rejeitam ou buscam reduzir o risco percebido. Desde 1989, de Garotinho e Marina Silva a Ciro Gomes e Simone Tebet, todas as candidaturas da terceira via pararam no primeiro turno. No fundo, o sucesso do centro depende de uma classe média ampla e moderada, e a brasileira é estreita (um terço do eleitorado), dividida e, por vezes, igualmente polarizada.
A razão é que as famílias de renda média oscilam entre o medo de perder posição e a expectativa de ascensão. Com frequência, apoiam políticas que enfraquecem quem vive do trabalho (inclusive a si mesmas) e hesitam diante de ações que ampliam numericamente o próprio segmento, por temor à concorrência por emprego, vagas educacionais nas universidades públicas e status.
Pondere-se também a suposta autonomia dos algoritmos de propaganda psicológica microssegmentada para criar as preferências negativas que engendram a polarização. Em uma mão, a estrutura social forma as preferências e identidades; em outra, a propaganda catalisa predisposições extremistas sobre o substrato preexistente.
Portanto, reprimir a fake news como crime tem eficácia, mas equivale a tratar a febre ignorando as desigualdades estruturais acumuladas que corroem as democracias. Cobrar moderação retórica dos candidatos (um consenso que vai além dos setores médios) é inócuo: visões de mundo mudam por choques tectônicos de realidade, e resistem à queda do desemprego e à melhora dos indicadores sociais, vide o IDHM recorde de 0,805 em 2024, mas que despenca a 0,641 quando ajustado à desigualdade (PNUD).
Por fim, a fragilidade da terceira via nasce de sua própria ambição: flutuar acima da realidade social e econômica do país. Atenuar as hostilidades políticas exige alargar a classe média; alargá-la exige reduzir desigualdades; reduzir desigualdades exige, ao lado de uma política robusta de desenvolvimento nacional, também reforçar políticas redistributivas que parte dos setores médios detesta.
Enquanto um projeto defende aprofundar as desigualdades entre pessoas e regiões do país, e outro busca revertê-las, é muito provável que as urnas sigam expressando dois países.