Cada turno é uma eleição diferente. São etapas complementares, mas contam histórias distintas. No primeiro, o brasileiro avisou que não engoliria facilmente um quarto governo Lula. O prestígio popular do presidente não basta para renovar a confiança no PT. O resultado expôs o desgaste da continuidade num país que, depois de tantos anos sob influência petista, ainda enfrenta graves dificuldades.
O segundo turno contou outra história: o Brasil quer mudança, mas não embarca em qualquer aventura. Se o motorista desse carro for um Bolsonaro, a maioria prefere a estrada conhecida, mesmo sabendo dos buracos.
Assim como a esquerda recebeu um recado no primeiro turno, a direita ouviu outro, muito mais duro, no segundo. Enquanto se fiar nesse fio de cabelo frágil chamado família Bolsonaro, corre o risco de manter uma grande base sem conquistar a maioria. O clã perdeu duas disputas presidenciais consecutivas: com Jair, em 2022, e Flávio, em 2026. Há força eleitoral, mas o sobrenome também impõe limites.
A fuga de Flávio para os Estados Unidos, relatada por aliados à Folha após a derrota, reforça a necessidade de uma direita que encontre seu caminho no Brasil. Um projeto de país não pode depender dos destinos de uma família.
Essa direita precisa defender livre iniciativa, propriedade privada, responsabilidade fiscal, segurança pública e eficiência do Estado. Defendo que também seja desenvolvimentista: estimule investimento, infraestrutura, produtividade e emprego. Crescimento e compromisso social precisam andar juntos. Nenhum projeto será suficiente se abandonar quem precisa de comida na mesa, escola e saúde.
Também ficou um alerta para quem subestima estudantes, movimentos sociais e as chamadas minorias. A esquerda das praças, quando resolve se unir, é um tsunami difícil de conter. Sua mobilização nas ruas e nas redes construiu uma virada histórica. As urnas mostraram a força de quem foi buscar cada voto.
Pela primeira vez desde a primeira eleição presidencial em dois turnos, em 1989, quem terminou atrás na etapa inicial venceu a disputa. A abstenção caiu de 21,08% para 19,22%, o menor índice de um segundo turno em 20 anos. Cerca de 3 milhões de eleitores a mais compareceram.
Os próximos quatro anos exigem que ambos os lados aprendam. A direita precisa encontrar outro motorista. O PT terá de preparar a sucessão de Lula e encontrar um nome à altura de sustentar seu legado. Fernando Haddad certamente não é ele. Nenhum dos campos é dono dos passageiros. E nenhuma vitória garante a próxima chegada.