Em um país onde o crime organizado já não se limita à clandestinidade, mas impõe domínio territorial armado, o debate sobre segurança pública deixou de ser apenas jurídico, tornou-se existencial. É nesse cenário que surge O Tiro Necessário, uma obra que não pede licença para enfrentar um dos temas mais sensíveis do nosso tempo: o direito e o dever do Estado de reagir.
O livro parte de uma constatação incômoda: enquanto a legislação brasileira ainda opera sob paradigmas pensados para uma criminalidade comum, a realidade das ruas revela um inimigo diferente, armado, estruturado e disposto ao confronto. Fuzis em áreas urbanas não são metáfora; são evidência de que o Estado, em muitos momentos, já não detém o monopólio da força.
Com linguagem acessível, mas rigor técnico, a obra conduz o leitor por uma análise profunda da legítima defesa, do estrito cumprimento do dever legal e do uso da força na atuação policial. Mostra que o ordenamento jurídico não apenas permite a reação estatal, mas a exige quando vidas estão em risco.
Como já se reconhece na doutrina, a atuação policial, quando voltada à proteção de bens jurídicos, insere-se no campo das excludentes de ilicitude, desde que observados critérios de necessidade e proporcionalidade.
Ao mesmo tempo, o livro dialoga com estudos contemporâneos sobre o uso diferenciado da força, evidenciando que a ação policial não é arbitrária, mas regulada por parâmetros legais e operacionais que visam preservar a ordem pública e a integridade coletiva. O problema, portanto, não está na ausência de limites, mas na distorção de sua interpretação....
Mais do que uma análise jurídica, O Tiro Necessário é um chamado à lucidez. Questiona a inversão de valores que transforma o agente público em réu automático e o agressor armado em vítima presumida. Propõe, com coragem, uma releitura da legítima defesa sob a ótica do Estado, defendendo que esperar o primeiro morto para agir não é prudência, é abdicação.
A obra não é confortável. E nem pretende ser. Ela provoca, inquieta e desafia o leitor a abandonar respostas fáceis. Ao final, deixa uma reflexão inevitável: quando o Estado hesita diante da violência armada, quem paga o preço não são os discursos, são as vidas invisíveis das comunidades dominadas pelo medo.
O Tiro Necessário não é apenas um livro. É uma tomada de posição. E, talvez, a leitura que faltava para compreender que, diante da insurgência armada, não agir também é uma escolha, e uma escolha que custa caro. Por isso, finaliza fazendo uma proposta de modificação legislativa para aprimorar e qualificar a ação das polícias na defesa da sociedade.