No filme O Sexto Sentido (1999), Cole conta ao psicólogo infantil Malcolm Crowe que vê pessoas mortas. Elas não sabem que morreram. “Só veem o que querem ver”, diz o menino.
Para nós, que até segunda ordem estamos vivos, fica a provocação: enxergar basta para compreender? O psicanalista francês Jacques Lacan, no exemplo dos três prisioneiros, distingue o instante de ver, o tempo de compreender e o momento de concluir.
Pois bem, prezado leitor, voltemos ao filme. Malcolm tenta abrir a porta do porão e procura a chave nos bolsos, sem enxergar o aparador com livros que bloqueia a passagem. O gesto se repete: a porta parece apenas trancada. No desfecho, percebe a barreira e compreende que havia morrido. Ganha sentido a fala de Cole: os mortos só veem o que querem ver.
Pensamos nessa cena ao acompanhar notícias sobre Daniel Vorcaro. Há um senador cobrando, em áudio, recursos para um filme sobre o pai. Um deputado federal viajou em avião ligado ao banqueiro e pediu ajuda para um amigo num negócio de mineração. Um ministro voou com a esposa em aeronave ligada a Vorcaro; o escritório dela diz ter contratado um táxi aéreo. Surgiram contratos com escritórios de familiares de autoridades e uma alegação, ainda não comprovada, sobre um presente a uma autoridade pública. Entre jatinhos, charutos e uísque, há fatos e versões.
O voo de alguém próximo pode parecer uma corrida de Uber, enquanto uma alegação sobre alguém distante vira certeza. Lembra-se dos três prisioneiros, leitor? Entre ver e concluir, onde ficou o tempo de compreender? Compreender exige perguntas, algumas incômodas. Quem pagou? Que serviço foi prestado? O que está documentado? Se ameaçam nossas certezas, essas perguntas podem se tornar como o aparador de Malcolm: estão diante de nós, mas não as enxergamos.
Por mais óbvio que pareça, as perguntas que fazemos e as que evitamos carregam nossa história, afetos e vínculos. Diz a máxima: quando a política entra nos quartéis, a disciplina sai pela porta. No debate público, pode ocorrer algo parecido: quando só buscamos confirmar nossas convicções, a razão fica do lado de fora.
Nas redes sociais, informações repetidas podem reforçar esse olhar. Falta tempo para reunir as peças e reconhecer as camadas de um caso. Essa dificuldade não é exclusividade de uma posição política, nem desaparece com um diploma.
Na pressa, caímos em uma falsa dicotomia: ou a pessoa é inocente de tudo, ou qualquer proximidade demonstra culpa. É aqui que atropelamos o 'tempo de compreender' de Lacan. Passamos a tratar fatos diferentes como iguais e situações semelhantes com critérios opostos, filtrando a realidade para que ela valide nossas certezas. Afinal, a sensação de estar sempre certo é viciante. Quem não quer ter razão? Ou, mais a fundo: quem gosta de confrontar a própria contradição?
É no confronto com as contradições que o psicólogo infantil Malcolm precisou reconhecer a própria morte — condição que, segundo Cole, o fazia enxergar apenas o que queria. E nós? Que fatos ou análises deixamos de lado para preservar a imagem que temos de alguém, justamente porque pulamos a etapa de compreender na fissura de criar equivalências? Será que deixamos morrer nosso espírito crítico e, como Malcolm, passamos a ver apenas o que queremos ver?