Tudo planejado para a festa de formatura. Para o aniversário de quinze anos. Para aquela viagem dos sonhos. Ou para aquela reunião em que um novo produto seria apresentado. E eis que o planeta precisa rever seus planos. Uma das grandes lições que a humanidade está tendo a oportunidade de aprender com a experiência de viver e sobreviver a uma pandemia é a aprendizagem da incerteza. Essa aprendizagem não é algo novo: é inerente ao ser humano.
Já na virada do século, quando o filósofo Edgar Morin sistematizou para a Unesco o que seriam "Os Sete Saberes Necessários para a Educação do Futuro", o capítulo sobre enfrentar as incertezas já nos alertava que “o conhecimento é a navegação em um oceano de incertezas, entre arquipélagos de certezas.” Como os educadores, pais e escola podem ajudar as crianças e jovens a navegar por esse oceano?
Há inúmeras formas de responder a essa questão. Vou trazer o foco para três questões que podem impactar no sucesso da navegação pelo oceano de incertezas. A primeira delas é a crítica. Desde a mais tenra idade lidamos com a crítica. Nossa memória não alcança nossa primeira queda quando tentávamos andar, mas certamente ela gerou uma reação, nossa e de quem estava ao redor. Como é o acolhimento durante o processo? Se algo não dá certo, nós educadores e pais, expressamos empatia ou crítica? Nossa reação ao inesperado pode libertar ou aprisionar uma criança ou jovem. O pior é que, muitos dos que possuem aversão ao erro, frequentemente esperam que um jovem se torne empreendedor na vida adulta.
Como isso é possível se ele não pode errar? Lidar com o erro, com o fracasso, com uma mentalidade de crescimento, construindo com nossos filhos e alunos caminhos concretos para a resolução de problemas, os tornará mais resilientes e empreendedores ao longo da vida.
Uma outra questão crucial é o elogio. No lado oposto ao da crítica, há também para a atual geração um excesso na demonstração de afetos e incentivos, o que tem contribuído para o que está sendo chamado de égide “elogiocêntrica”. Valoriza-se o resultado, qualquer que seja, a inteligência (e não o esforço), e com isso muitas crianças e adolescentes já buscam o que consideram ser os objetivos mais facilmente alcançáveis, pois estão inseguros e sob o medo da inferioridade e rejeição. Essa postura dos jovens foi recentemente confirmada por uma pesquisa realizada por psicólogos das universidades de Amsterdã e de Utrecht.
Por outro lado, se valorizarmos o esforço em oposição às características supostamente inatas, ajudamos a criança ou jovem a romper seus limites do conhecimento e expandir suas relações, favorecendo dessa forma um permanente estado de aprendizagem e tolerância ao risco inerente à vida.
Por último, precisamos conhecer melhor o que o psicólogo Howard Gardner denominou de “Geração App”. Segundo Gardner, a geração nascida em um mundo dominado por aplicativos possui uma aversão ao risco que se manifesta em como esses jovens lidam com seus trabalhos escolares, amizades, expressão pessoal e buscas criativas.
A chamada “mentalidade app” induz esses jovens a acreditarem que tudo pode ser customizado para atender aos seus desejos. Professores e pais estão diante de um enorme desafio, pois eles próprios estão inseridos nesse mundo dos aplicativos. Basta nos questionarmos sobre o quão propensos estamos a abrirmos mão do Waze, por exemplo, ao nos deslocarmos de um ponto a outro?
Na sala de aula ou em casa, estamos cultivando a curiosidade e as habilidades de busca ou partimos direto para o Google? Para o grande educador Rubem Alves, “educação começa com a fome”. Segundo ele, é a curiosidade que gera essa fome de aprender. E a curiosidade vem repleta de incertezas, uma vez que ela é uma geradora de indagações. Nossas decisões podem trazer conforto, mas também podem nos tornar menos competentes para lidarmos com as incertezas inerentes à vida.
Voltando a 2021 e além, penso que esteja muito claro para a humanidade que vivemos em um mundo mais incerto do que nunca e sob transformações jamais experimentadas pelo homo sapiens. Em um momento em que famílias estão renovando seus laços com instituições de ensino, uma boa pesquisa em relação às metodologias adotadas pelas escolas se mostra essencial no processo decisório. Escolas que adotam de forma consistente e em todas as suas séries, por exemplo, uma metodologia de projetos, estão muito mais preparadas para lidar com o aluno do século XXI.
Nessas instituições, risco e erro são ferramentas para o desenvolvimento, a curiosidade é permanentemente fomentada, e mais do que responder a questões pré-determinadas, o aluno precisa, acima de tudo, gerar as perguntas capazes de promover as inovações com potencial de criar avanços tecnológicos, sociais e ambientais para todo o nosso planeta. Isso não é novidade para a humanidade. As dúvidas e incertezas sempre nos levaram para as novas fronteiras do conhecimento.