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Luiz Fernando Mello Leitão

Artigo de Opinião

É sócio da Ene Inteligência Empresarial e professor convidado do FGV Management
Luiz Fernando Mello Leitão

O livre comércio e a janela de oportunidades para o ES

Internacionalizar não significa apenas exportar produtos ou serviços. Significa pensar o negócio de forma global, estruturar operações, compreender riscos, adaptar processos e construir reputação
Luiz Fernando Mello Leitão
É sócio da Ene Inteligência Empresarial e professor convidado do FGV Management

Publicado em 20 de Maio de 2026 às 10:00

Publicado em 

20 mai 2026 às 10:00

Como já cantou Milton Nascimento, “há um mundo que insiste em nascer em cada gesto de abrir”. O verso traduz o momento vivido pelo Brasil diante do novo acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. 


Mais do que um tratado econômico, ele representa a abertura de uma nova fronteira de oportunidades para empresas que desejam crescer, diversificar mercados e competir em escala internacional.


Mas abrir portas não basta. É preciso preparo para atravessá-las. Em um cenário global cada vez mais competitivo e regulado, o acordo amplia possibilidades, mas também eleva o nível de exigência para quem pretende ter resultados positivos e de médio e longo prazo.


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Desde 1º de maio, entrou em vigor, ainda que de forma provisória, o programa de livre comércio entre os 31 países dos dois blocos, que juntos somam um PIB da ordem de 22 trilhões de dólares. Ao longo dos próximos 15 anos, teremos uma redução progressiva de tarifas, com alguns efeitos imediatos. 


Do lado do Mercosul para a União Europeia, 93% das tarifas serão eliminadas em até 12 anos; no sentido inverso, 91% em até 15 anos. Para o Brasil, isso significa acesso a um mercado estimado em 3 trilhões de dólares e um impacto potencial de aumento do PIB em até 37 bilhões de reais até 2044, segundo a Apex.


Os dados macroeconômicos dão sinais positivos para o empresário brasileiro com interesse em crescer internacionalmente. No agronegócio, as oportunidades são evidentes: carne bovina, suína e de aves, café com tarifas zeradas em até quatro anos, mel, bebidas, frutas e uma lista extensa de produtos com maior competitividade num mercado de alto poder aquisitivo. Na indústria, destacam-se químicos, têxteis, móveis, calçados, metalmecânico, entre outros segmentos tradicionalmente fortes no país.


Outro segmento promissor, e menos comentado, está nos serviços, incluindo engenharia, tecnologia, gestão, educação, inovação, design, medicina, cultura e arte. O acordo abre espaço para intercâmbio, prestação de serviços especializados e formação de parcerias estratégicas. 


Para o Espírito Santo, esse é um momento singular. O Estado, que já se consolidou como protagonista em comércio exterior e logística, tem condições de reforçar sua vocação como hub de internacionalização. Cadeias consolidadas de café, pimenta, rochas ornamentais, móveis e outros setores podem ganhar escala se conseguirem se adaptar às demandas europeias.


Mas toda “janela de oportunidade” pressupõe desafios, que são inúmeros e complexos. O primeiro é identificar oportunidades reais e definir quais produtos e serviços são, de fato, competitivos em um mercado exigente, sofisticado e  regulado. 


Não basta querer exportar; é preciso compreender onde há demanda, quais nichos estão em expansão e quais barreiras técnicas e regulatórias precisam ser superadas.


O segundo é entender o mercado europeu em profundidade: suas características, cultura corporativa, hábitos de consumo e exigências socioambientais. Um consumidor alemão não enxerga valor da mesma forma que um português ou um francês, assim como empresas na Espanha negociam de maneira distinta das holandesas.


O terceiro passo envolve adequar produtos e serviços às demandas locais, incluindo certificações, rotulagem, padrões de qualidade, sustentabilidade e rastreabilidade. Muitas empresas brasileiras com enorme potencial perdem competitividade justamente por negligenciarem esses detalhes.

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Em seguida, vêm as estratégias de entrada e consolidação. Lançar, divulgar, vender e crescer em Portugal, Espanha ou França exige abordagens diferentes, planejamento comercial, comunicação adequada, canais de distribuição e presença consistente. 


Ou seja, nada substitui boas parcerias locais. Ter aliados em solo europeu — distribuidores, representantes, investidores e parceiros estratégicos — é, muitas vezes, o que separa uma iniciativa promissora de um resultado efetivo.


Internacionalizar não significa apenas exportar produtos ou serviços. Significa pensar o negócio de forma global, estruturar operações, compreender riscos, adaptar processos e construir reputação. Exige inteligência de mercado, planejamento tributário e regulatório, conhecimento cultural e capacidade de execução.


O desafio está colocado e o potencial é enorme. Mas transformar projeções em contratos assinados dependerá da capacidade de preparação das empresas brasileiras. 


O acordo Mercosul e União Europeia não garante sucesso automático; ele amplia o caminho para quem estiver disposto a atuar alinhado aos padrões internacionais, a investir em estratégia e a construir competitividade de longo prazo.

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