Durante muito tempo, eficiência significou manter pouco estoque, comprar de quem oferecesse o menor preço e fazer cada peça chegar exatamente no momento em que seria utilizada. Funcionava bem, desde que ninguém esbarrasse na mesa. Nos últimos anos, esbarraram várias vezes.
Pandemia, guerras, disputas comerciais, secas, bloqueios marítimos, tarifas e mudanças repentinas de política econômica expuseram uma fragilidade: boa parte da prosperidade global dependia de um mundo previsível. Quando essa previsibilidade desapareceu, empresas, governos e consumidores começaram a pagar a conta.
O custo da incerteza nem sempre aparece com esse nome na nota fiscal. Ele surge no frete mais caro, no seguro reforçado, no estoque acumulado, nos juros elevados, na escolha de fornecedores alternativos e na carga que percorre milhares de quilômetros adicionais para evitar uma região em conflito.
A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento tem alertado para o aumento da volatilidade no transporte marítimo. Crises no Mar Vermelho, no Canal de Suez e em outras rotas estratégicas ampliaram distâncias, consumo de combustível, prêmios de seguro e tempo de viagem. Em 2024, por exemplo, os fretes de contêineres entre Xangai e a Europa chegaram a mais que triplicar em relação ao início da crise.
Uma rota marítima deslocada imobiliza mercadoria, capital e embarcações e o atraso entra no preço do produto, mesmo se o consumidor nunca ouviu falar do estreito, do porto ou do conflito que o provocou.
A mesma lógica chegou às fábricas e ao comércio. Depois de aprenderem que depender de um único fornecedor pode paralisar uma operação inteira, muitas empresas passaram a trabalhar com estoques maiores, contratos redundantes e fornecedores distribuídos por diferentes países. É menos eficiente no papel e mais seguro na prática. E segurança custa dinheiro.
A OMC estima que tarifas mais altas, encarecimento de insumos e incerteza comercial tendem a enfraquecer os investimentos e desacelerar o comércio mundial em 2026/27. Já o Banco Mundial projeta crescimento global de apenas 2,5% neste ano, em um ambiente pressionado por conflitos, perturbações nas commodities e dúvidas sobre os rumos da política econômica.
Quando empresários não conseguem enxergar o próximo semestre, adiam fábricas, contratações e expansões. Bancos cobram mais para emprestar. Investidores exigem retornos maiores. Produtores rurais ficam cautelosos diante do preço dos insumos, do câmbio e do clima. O dinheiro continua circulando, mas passa a caminhar olhando para os lados.
Durante décadas, a prioridade foi encontrar o fornecedor mais barato. Hoje, a pergunta é: quem continuará entregando quando alguma coisa der errado? A cadeia produtiva mais barata perde espaço para a mais resistente.
O Fundo Monetário Internacional ainda projeta crescimento mundial próximo de 3,3% em 2026. Mesmo assim, reconhece que tensões geopolíticas e incertezas comerciais permanecem entre os principais riscos.
O mundo não ficou mais caro apenas porque faltou petróleo, trigo, chips ou contêineres. Encareceu porque empresas passaram a comprar proteção contra aquilo que ainda não aconteceu.
E, em uma economia que já não sabe onde surgirá a próxima crise, até a tranquilidade passou a ter preço.