O Brasil está envelhecendo — e mais rápido do que muita gente imagina. Dados do IBGE indicam que a população com 60 anos ou mais já representa mais de 15% dos brasileiros, e a tendência é que esse percentual continue crescendo nas próximas décadas.
E a mudança demográfica nunca vem sozinha. Ao contrário, traz impactos profundos para a economia, para as políticas públicas e, sobretudo, para a forma como enxergamos o papel do idoso na sociedade.
Um desses impactos é perceptível no mercado de trabalho. Em 2024, a taxa de ocupação de pessoas com mais de 60 anos no Brasil atingiu o recorde de 24,4%.
Significa que uma em cada quatro pessoas com mais 60 ou mais de oito milhões de idosos seguem economicamente produtivos, em um aumento superior a 68% em 12 anos. E dois verbos explicam essa realidade: o querer e o precisar, revelando duas faces de um processo complexo.
Um ponto é que, como diz por aí, os 60 de hoje talvez sejam os “40 de ontem”. E dizer isso é afirmar que a população que envelhece hoje no Brasil chega aos 60 anos ativa, cheia de energia, saudável, produtiva, autônoma e disposta a seguir definindo os rumos de suas trajetórias.
Para muitos, continuar trabalhando não é apenas uma possibilidade — é um desejo. O trabalho segue sendo espaço de troca, de construção de identidade, de pertencimento. É onde essas pessoas continuam exercendo sua experiência, compartilhando conhecimento, se mantendo conectadas com o mundo em transformação e exercendo o bem envelhecer.
Há, inclusive, um valor crescente na maturidade profissional: visão de longo prazo, capacidade de decisão, equilíbrio emocional e repertório acumulado são ativos importantes em ambientes cada vez mais complexos, além dos inúmeros ganhos que a intergeracionalidade – a troca entre diferentes de gerações – podem trazer para ambas as partes e para uma organização como um todo.
Mas esse é apenas um lado da moeda. Do outro, há um contingente expressivo de brasileiros que permanecem no mercado por necessidade.
A redução da renda na aposentadoria, muitas vezes, não acompanha o custo de vida e as demandas individuais ou familiares — sim, muitos idosos são arrimos de família —, haja vista que a estrutura de proteção social ainda é insuficiente e deixa em aberto lacunas no que diz respeito a saúde, bem-estar e necessidades básicas.
E é justamente nesse encontro entre o querer e o precisar que o tema ganha densidade, e exige, ao mesmo tempo, responsabilidade e trabalho conjunto por parte de indivíduos, entidades, empresas e governos.
O Brasil que envelhece precisa, obrigatoriamente, se preparar para isso. E essa preparação passa por diferentes frentes. É preciso combater o etarismo, ainda presente em processos seletivos e no cotidiano das organizações.
É fundamental investir em programas de requalificação profissional ao longo da vida, reconhecendo que aprender não tem prazo de validade. Também é urgente repensar modelos de trabalho, com mais flexibilidade, abertura para diferentes formatos de contratação e valorização de trajetórias diversas.
Ao mesmo tempo, é indispensável fortalecer a rede de proteção social, por meio da renda e do acesso à saúde e à qualidade de vida, entendendo a questão como uma das agendas centrais de um país em franco perfil demográfico.
O Brasil que envelhece trabalhando não pode ser visto de forma simplista. Ele é, antes de tudo, um retrato das transformações em cursos e um alerta sobre as escolhas que precisamos fazer e sobre oportunidades que se apresentam para mudar o amanhã.
O desafio está em construir um cenário em que trabalhar mais tempo seja, de fato, uma opção digna e desejada. E não a única alternativa possível.