Há uma palavra pouco usada que talvez merecesse ganhar não necessariamente o vocabulário, mas principalmente a prática dos nossos dias: flanar.
O termo ganhou significado especial a partir do poeta francês Charles Baudelaire e da figura do flâneur, entendido como aquele que caminha pela cidade sem ter a pressa como companheira ou a obrigação de chegar rapidamente a um destino específico.
O flâneur caminha para observar, descobrir, experimentar, “sentir” a cidade. Ele se deixa surpreender pelas ruas, pelas pessoas, pela arquitetura e pelas histórias que encontra pelo caminho.
O termo me vem à mente ao pensar nos 475 anos de Vitória e na relação que temos estabelecido com a cidade – e com a vida, de forma geral. Vivemos tempos de pressa, de urgências não urgentes, de vivências intermediadas pelas telas.
Como resultado, esquecemos de olhar o que a cidade ao nosso redor nos oferece como possibilidades de encontro – com a gente mesmo e com o outro -, de aprendizado e de novas experiências. E isso vale para adultos e também para as crianças.
Quantos entre os nossos pequenos cidadãos conhecem de fato a cidade onde vivem? Quantos têm a oportunidade de caminhar por suas ruas, observar um prédio antigo, entrar em um mercado, descobrir de onde vem o nome de uma praça, conversar com quem mantém viva uma tradição ou simplesmente perceber que a paisagem muda de um bairro para outro? E como alguém que atua na área de educação, vou além: como as escolas podem contribuir ou não neste caminho?
O que penso é que, ao se fechar em si mesma, a escola limita as oportunidades de aprendizado de seus alunos e deixa de exercer um papel fundamental, que é de contribuir para a construção da cidadania.
Toda cidade é um organismo vivo, construído diariamente por quem ocupa seus espaços, utiliza seus parques, visita suas praias, atravessa suas pontes, conhece seu patrimônio.
Nossa cidade, em especial, oferece amplas possibilidades de aprender e experimentar: temos o mar como vizinho; um centro histórico riquíssimo; um porto dentro da cidade; parques, praças e monumentos que contam inúmeras histórias; distâncias curtas; manifestações culturais expressivas; e ecossistemas importantes, que fazem de Vitória uma belíssima sala de aula ao ar livre.
É diferente estudar o manguezal e passear por ele. Ouvir falar da panela de barro e conversar com uma paneleira em Goiabeiras. Ler sobre a história do Espírito Santo e percorrer as ruas do Centro.
Ao caminhar pela cidade, a criança também exercita a curiosidade, a autonomia e a capacidade de observação. Aprende a conviver com o diferente, percebe problemas, elabora perguntas. E, assim, aos poucos, compreende que aquele espaço também lhe pertence.
E talvez esteja aí um dos aprendizados mais importantes: apropriar-se da cidade significa reconhecer-se como parte dela. Frequentar o espaço público, conhecer sua história e compreender suas transformações criam vínculos. E vínculos produzem algo de que nossas cidades precisam muito: responsabilidade coletiva.
No aniversário de 475 anos de Vitória, temos uma boa oportunidade para pensar sobre qual relação as novas gerações estão construindo com a cidade. Queremos jovens que apenas circulem por ela ou cidadãos capazes de observá-la, questioná-la, ocupá-la e cuidar dela?
Talvez possamos celebrar este aniversário de uma maneira muito simples: convidando nossas crianças a caminhar. Sem tanta pressa, com direito de olhar para os lados, fazer perguntas, descobrir e se surpreender. Um presente para eles, para nós mesmos e para a própria cidade que ganha em cuidado e em perspectivas de futuro.